JÚLIO, de James Andrade

 — Então, Cida? O que aconteceu?
 — Eu… eu… não sei… ao certo…
 Aparecida Souza, a Cida, como era chamada dede criança, tentou arrumar os cabelos, numa vã tentativa de colocar ordem no caos; estavam por demais embaraçados, e feios, pareciam chamas avermelhadas; não que isso importasse, a aparência; mexia no cabelo mais para se acalmar do que qualquer outra coisa. Ao fazer isso tremia tanto que mais parecia estar se estapeando.
 — Eu… estava em casa – recomeçou balbuciante – assistindo TV na sala; sozinha; novela eu acho; foi… foi então que… Deus! O Júlio… chegou…
 Um choro copioso interrompeu suas palavras inseguras. Do outro lado da mesa o homem de terno cinza tirou os óculos de aro fino, com a mão ossuda arrumou os parcos cabelos, que já há algum tempo rareavam. Respirou fundo. Entendia a hesitação da jovem. Ele mesmo tinha dificuldades em relembrar tudo aquilo; mas era preciso.
 Calmamente, depois de esperar até que os soluços diminuíssem, empurrou duas fotos sobre o tampo desgastado da mesa. Fotos do pai.
 — Júlioatacouelecomummachado… – as palavras saíram da boca da jovem como uma torrente, mal deu para entender.
 Uma das fotos mostrava um corpo todo ensangüentado, com um grande ferimento bem no meio das costas. Estava sem a cabeça. Na outra se via uma mancha de sangue escuro e espesso, misturado com fios de cabelos já grisalhos e pedaços de algo esbranquiçado. Era a cabeça, ou que restava dela.
 —…o pai estava sentado na varanda – continuou, mais calma – a mãe não deixava ele fumar dentro de casa, dizia que a fumaça ia matar todos nós; o Júlio ria toda vez que ouvia isso, ele, o Júlio, sorria muito, sabe? Antes de… de… Deus! Ele arrancou a cabeça do pai! Maldito… maldito… mal… — De novo o choro.
 O homem de cinza recolocou os óculos, não que precisasse deles, as lentes não tinham graus, fazia aquilo por estar acostumado; gostava de ficar colocando e tirando os óculos; se distraia, era algo para fazer enquanto pensava. Só isso.
 — A primeira vez que o Júlio foi na minha casa – os soluços ainda a incomodavam – foi tudo tão… maravilhoso, tão mágico. Ele era lindo, parecia o Di Caprio, não o de agora, velho, mas aquele outro, dos primeiros filmes; ninguém disse abertamente, mas todos adoraram ele…
 Duas outras fotos foram empurradas sobre a mesa. A mãe. D. Célia Regina Souza. O homem estreitou os olhos quando fitou a jovem. A mãe teve um tratamento – o que foi mesmo que aquele açougueiro magricela da perícia tinha dito mesmo? – Especial?! As fotos foram tiradas na cozinha, e eram horríveis. Os móveis, brancos, ficaram rubros de sangue. A mulher de meia idade foi dividida ao meio. Meticulosamente.
 O agressor usou um machado, e começou na parte de baixo do corpo, nas genitálias, e foi subindo, subindo. O açougueiro de cabelos avermelhados e nariz descomunal não cansava de repetir. Me-ti-cu-lo-sa-men-te. Sílaba por sílaba, sujeitinho detestável.
 De acordo com os exames clínicos a pobre coitada ficou consciente durante quase todo o processo. Foi dopada antes. Preparada para não reagir, e permanecer sóbria. Atrocidade premeditada nos mínimos detalhes. Monstruoso.
 — Mãezinha… – foi tudo que a Cida pode dizer, antes de esconder o rosto com as mãos, agora quase gritando.
 Uma foto caiu da mesa, soprada por um vento que pareceu ter vindo de lugar nenhum. O homem se abaixou para pegá-la.
 Depois de algum tempo o choro voltou a diminuir. O homem aguardou pacientemente, até que a jovem recuperasse um pouco o controle emocional, já tão desgastado. Ele aproveitou o tempo para se acalmar também, embora parecesse tranqüilo, por dentro estava tão agitado quanto a jovem, só que procurava não demonstrar. Tinha que parecer seguro de si.
 — O Júlio achava minha mãe bonita – disse Cida, pouco mais do que um sussurro – mais até do que eu, vivia dizendo isso, devia ter desconfiado, devia…
 A foto que caiu foi recolocada na mesa, junto com outras três. Estas últimas tinham sido tiradas em diferentes lugares da casa. Quarto. Sala. Lavabo sob a escada. Três lugares, o mesmo corpo. O irmão. 13 anos apenas.
 Caio Pereira Souza Júnior. O CêPê, apelido que ele mesmo se deu; tipo aqueles dos rapers americanos. Ninguém o chamava assim; o que ele odiava; chamavam de Cainho; que odiava ainda mais.
 — Ele não gostava do Cainho, o Júlio – Cida, ainda trêmula, vira o rosto, desviando o olhar das fotos do irmão mais novo, mas tinham tantas fotos sobre a mesa que era quase impossível não mirar nenhuma delas, todas mostrando sangue e corpos mutilados, sua família – se bem que meu irmão não gostava dele também.
 O homem tirou os óculos novamente, com gestos calmos, procurou organizar as fotos, fazendo grupos. Pai; mãe; irmão. 
 — Acho que o Júlio não gostava do Cainho porque ele sabia – continuou Cida – acho que sempre soube, desde a primeira vez que os dois se falaram; o Cainho sabia que o Júlio não prestava, que não era boa coisa para mim, por isso nunca gostou dele; nem aceitava os presentes que o Júlio trazia. Meu irmãozinho era muito esperto, sempre foi, bem mais que eu, mais que qualquer um da família, não sei como o Júlio conseguiu misturar aquela coisa no leite com chocolate dele; desconfio que misturou aquela droga direto na lata de chocolate… – lágrimas escorreram – o Cainho sempre me dizia que o Júlio era uma “roubada”, que eu tinha que “sair fora” daquilo; eu tinha que ter ouvido ele… tinha… Deus! – as lágrimas pioraram – é verdade… que estão faltando pedaços do corpo dele, do meu irmãozinho?
 O homem de cinza não respondeu. Só estreitou ainda mais os olhos. A voz da jovem parecia sumir, ela encolheu o corpo esquio na cadeira, como se quisesse desaparecer. Seu rosto estava vermelho e inchado, os olhos claros estavam injetados pelo choro. 
 — Maldito dia em que o conheci – ela não olhava mais para a mesa, estava com o rosto escondido entre as mãos – Júlio era um amigo de infância, o vi pela primeira vez na escola, acho que ainda era o pré, nós praticamente crescemos juntos, freqüentava minha casa quase todos os dias, vivia lá. Quando estava triste ou chateada ele me ouvia, me dizia coisas no ouvido, dava beijinhos, sorria, logo eu estava sorrindo também, não conseguia ficar triste perto dele, simplesmente não conseguia – sua voz diminuiu o volume – acho que foi meu primeiro namorado, nunca conversamos sobre isso, mas eu contava tudo para ele, à noite, abria a janela do meu quarto para ele entrar – quase um sussurro – nunca fizemos sexo, só ficávamos lá, deitados, juntinhos, ouvindo o coração um do outro bater…
 A jovem fez uma pausa, respirando fundo.
 — Como ele pode fazer isso comigo? Com a minha família? Como? Maldito… espero que morra na cadeia, apodreça lá.
 O homem recoloca os óculos, fitando a jovem acocorada na cadeira. “Ela até que é bem bonita” – pensa. Rapidamente afasta o pensamento. A tensão o faz divagar.
 — Você me promete que o Júlio nunca mais vai sair da cadeia? – pergunta a jovem levantando a cabeça, encarando o homem, que, pego de surpresa em meio a pensamentos, por alguns segundos, pareceu ruborizar ante os grandes olhos claros – Promete?
 Havia medo na voz dela. Muito medo.
 — Ele virá atrás de mim, sei que virá, você precisa me proteger dele, precisa…
 Encolhida na cadeira Cida falava cada vez mais alto, quase gritando. Estava perdendo o controle, trêmula, puxava os cabelos, arrancando alguns tufos.
 Ameaçava ficar histérica.
 Forçando aparentar uma calma incomum para um momento tão tenso o homem de cinza recoloca os benditos óculos de lentes transparentes e começa a juntar todas as fotos que estavam espalhadas sobre a mesa, fazendo um maço, igual a um baralho.
 — Se acalme, Cida! – disse pausadamente – Controle-se, está bem?
 Ele dá um suspiro longo e volta a encarar a jovem que ainda tremia muito, mas que não puxava mais os longos e desgrenhados cabelos ruivos.
 — De novo! O que aconteceu na sua casa ontem?
 — O Júlio, ele… ele matou meus pais e meu irmãozinho com um machado, tentou me matar também, só que não conseguiu, acho que foi sorte, ou um milagre; ontem, pela primeira vez desde que me lembro, não tomei meu suco de laranja depois de chegar da escola, ele não me drogou, por isso pude fugir quando chegou com aquele… aquele… maldito machado…
 O homem de cinza brinca com os óculos novamente. Busca se acalmar, sua testa, já muito proeminente, brilha com gotas de suor que escorrem em direção aos seus olhos.
 — De novo, Cida! Conte-me o que aconteceu com sua família.
 Confusa, a jovem olha fixamente para o homem, que sustenta seu olhar.
 — Já falei, mais de uma vez – disse ela, alterando a voz – o Júlio…
 — Cida; o Júlio não existe…

fim

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~ por spereirac em 5 setembro, 2008.

2 Respostas to “JÚLIO, de James Andrade”

  1. COMO SEMPRE O AUTOR ENTRA NO MAIS PROFUNDO E DESCONHECIDO PODER DO INCONSCIENTE E NOS ALERTA DO QUE SOMOS CAPAZES, VIGIAI E ORAI.

  2. Amém…

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