O PORTADOR DA LUZ – Parte 1, de Nelson Magrini

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Não havia vento de espécie alguma e o ar parado era quente e sufocante. A paisagem ao longe tremeluzia, apresentando-se deformada pelas ondulações de calor. Um pobre cachorro, tão magro que muitos jurariam que não seria possível que estivesse vivo, se arrastava a procura de uma sombra. Possivelmente, até à noite, estaria morto.

Se algum lugar poderia ser descrito como o Inferno, certamente aquele era o lugar. Durante o dia, a temperatura atingia patamares indescritíveis, traduzidos em terras ressequidas e rachadas, em vastos rios transformados em córregos, e garbosos lagos, agora uma caricatura travestida em amontoados de poeira. Já havia meses, aquelas terras não viam o menor sinal de chuva ou brisa fresca, castigada pelo calor e pela seca destruidora e mortal.

O homem se vestia de maneira simples, calças caqui e camisa branca, já um tanto surradas, contrastando com os sapatos, que apesar da fina poeira que a tudo permeava, se apresentavam impecavelmente limpos e engraxados.

Ele caminhava ao sol, um livro velho, com a capa roída em vários pontos, à mão, uma antiga bíblia, e um crucifixo de madeira, bastante rústico e desgastado, na outra. Apenas um chapéu de palha envelhecido o protegia um pouco, mas fosse como fosse, não se incomodava pelos desconfortos. Até certo ponto, o desconforto era um preâmbulo para aquilo que se propunha a fazer, uma marca deixada por Deus àqueles que viviam sobre a Terra, lembrando os que não o seguissem, dos infortúnios maiores e inomináveis que haveriam de encontrar e sofrer pela eternidade afora. Era tido como um Deus misericordioso, mas ainda assim, severo, como gostava de lembrar.

E era especialmente para estes desafortunados que o homem levaria a palavra, levaria a luz aos que precisavam ver, aos que teimavam em se deixar fechar os olhos, fosse pelo esquecimento, dos de mentes fracas, fosse pela distração, que a vida de pecados tragava os de espírito covarde.

Mas ele se encontrava ali para lembrá-los, era o carrasco e ao mesmo tempo, o pai bondoso que acariciava o filho, o alento e a esperança, e para alento e esperança, não existia desconforto ou provação. Nunca.

Muitas serão as pedras em que terei de pisar!

Pegou-se pensando, lembrando as palavras de um antigo pregador.

Mas serão estas mesmas pedras que edificarão meus caminhos!

Completou o pensamento predileto com satisfação, sorrindo quase de maneira imperceptível, com o canto da boca.

Muitos anos haviam se passado desde que ouvira aquelas palavras pela primeira vez, mas nunca as esquecera, e ainda possuíam o mesmo impacto sobre si, assim como tiveram em sua juventude. E graças àquelas palavras, e tentas outras que ouvira com louvor e gratidão, que se edificara, que fizera das pedras em seu caminho, a pavimentação que lhe sustentava a andança de fé, o levar da palavra àqueles que a desconheciam ou que acabaram por se desviar do caminho, o único caminho sagrado, que levava à redenção e ao momento maior de, por fim, se achar em paz e com a consciência tranqüila do dever cumprido e a missão realizada.

E assim como antes, uma vez mais iria pregar. Contudo, desta feita seria diferente, seriam as últimas palavras que pregaria naquele pobre lugar. As últimas noites, quase sem dormir, haviam sido preenchidas por pensamentos e decisões, e mais do que nunca, sabia que era a hora de voltar para casa, de cumprir o destino que lhe era seu, que aprendera e enxergara depois de todos aqueles anos peregrinando pelas antigas colônias portuguesas no continente africano.

Chegara à hora de mudar tal situação. Apesar de todos os esforços, as pessoas haviam perdido a devoção, o respeito e a temeridade pelo divino e o mais sagrado. Não eram apenas uns poucos, pequenos punhados aqui e ali, que se desviavam ou fraquejavam. Eram muitos, espalhados por todos os lugares, cantos, os mais escondidos e esquecidos recantos do planeta. Era o levante dos perdidos, dos que desdenhavam e dos ignorantes, daqueles que faziam das mãos e atitudes, instrumentos propício ao inimigo maior, ao Mal infinito, ao Diabo.

No entanto, tudo isto iria mudar. Iria lembrá-los, abrir-lhes as feridas pútridas e expô-los, para depois, purificá-los, sem clemência ou fraquejo para com os fracos e pecadores, para os que viraram as costas a Deus. Esta era sua missão divina e o dever de sua vida. O caminho que lhe fora revelado e para o qual fora agraciado, e em nome do Senhor, as pedras haveriam de ser pisadas, e sobre sangue e suor, sobre sofrimento e redenção, o caminho seria edificado mais uma vez.

Pouco antes de alcançar a grande palhoça, erguida para proferir a palavra, o homem se deteve, voltando-se para a aldeia à volta, na qual vivera aqueles últimos meses, observando-a demoradamente, sabendo que aquele aglomerado de coitados nunca chegaria a ser uma cidade de verdade, por menor e esquecida que viesse a ser. Apesar da fé, aquele lugar seria sempre uma aldeia carente, doente e sem futuro.

Por um momento, o aperto no coração o fez conjecturar que poderia mudar tudo aquilo, com o ouro e os diamantes, entretanto, logo desistiu da idéia. Não podia fraquejar, não podia. A riqueza acumulada, às custas de tantas outras vidas, tinha um propósito diferente, um outro objetivo, outro destino. A fé necessita de sacrifícios, e assim como ele, seus filhos também fariam sua parte, fosse aqui ou em seu lar, sua pátria.

O homem subiu à palhoça e suspirou, como que sentindo o fardo que teria de carregar, porém após alguns segundos, como por milagre, pensou, já não havia mais cansaço ou pesar. Piscou repetidas vezes e começou a falar, e quando falou, a voz se inflamou e soou com ardor e convicção, com fé e decisão, o raio e o trovão.

No entanto, ele próprio não as ouvia. Seus pensamentos se achavam em outro lugar, bem distante dali. Pensava em seu país, no lar que, em breve, reencontraria.

Todavia, não seria simplesmente uma volta para casa, um retorno ao passado. Seria um novo começo e não voltaria sozinho. A luz e a palavra retornariam com ele.

O raio e o trovão.

 

 

 

 

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~ por jmodesto1 em 11 setembro, 2008.

25 Respostas to “O PORTADOR DA LUZ – Parte 1, de Nelson Magrini”

  1. Olá Nelson!
    Excelente início para essa mini hein!
    Ficou show, realmente muito bom!

    Parabéns!!

    Tiago Castro
    Blog Insônia

  2. Como sempre, magnífico. Já estou ansioso para ler a continuação…
    Um forte abraço,

  3. Caro Nelson.

    Muito bom o começo da mini-série. A maneira que você escreve é fabulosa.
    Espero a continuação
    Abraços!

    Juliano Sasseron
    autor de CRIANÇAS DA NOITE

  4. Caro Nelson,

    Ótimo começo. Estou ansioso pela continuação.

    Jack Sawyer

  5. Já estou vendo que esse Portador da Luz vai passar por altas provações! (rsrs)
    Aguardo ansioso pela continuação, Nelson!
    Abraços.

  6. Caramba Nelson!!! O conto ta ficando bom demais!!!

    Estou no aguardo da continuação!!!! PARABENS NOVAMENTE PELO SUCESSO!!

    Grande abraço!!

  7. Já estou ansiosa para ler as próximas partes…Fé, esperança no meio de um lugar tão triste como o que descreveu é quase impossível!
    Parabéns
    bjs

  8. Olá Nelson,
    Seus detalhes, a maneira como dirige a história é muito rica. Deixa a gente na espectativa dos acontecimentos. É o tipo de história que a gente nunca sabe onde pode terminar. É isso que atraí os leitores como eu que sempre busco histórias com personalidade.
    Parabéns pelo início des obra muito bem construida e bem escrita.

    Abraços mortais,
    Adriano Siqueira

  9. Grande Nelson Magrini,
    Bem ao seu estilo, suspense e emoção em toda a narrativa, detalhes e detalhes, como sempre voce foi bem claro, “não pairam duvidas”.
    Sensacional, como sempre, o melhor autor do genero!
    Tambem, “Quem mais poderia ser!!!”
    Um grande abraço
    Jose Paulo Macedo Soares Junior

  10. A todos que escreveram, um muito obrigado. Fico realmente feliz que a mini-série tenha agrada tanto. Em breve, novas seqüências virão.

    Grande abraço!

  11. Nelson Fayman,

    Não sei o que achar ainda, mas to curioso pra saber aonde isso vai dar.

    Abraço

  12. Nossa excelente início mesmo, vc escreve muito bem, me senti uma coisinha eheheh perante tanta verbalidade e conhecimento de nosso dicionário.
    Mas ao que interessa, estou indo agora ler a segunda parte, quero saber o que vai acontecer. É isso amigo, quando algo é bom a gente quer continuar, quer ler o resto, ver a trama.
    Adorei. Vejo você nas cadeiras da Academia ahahahahahahahahahah.
    Bjs grandes

  13. Cadeiras da academia foi ótimo!

    Um beijo!

  14. Parabéns vc. é Show!!!
    Bjinho Roby

  15. Valeu, Roberta, obrigado.
    Bjo!

  16. Nelson,

    Como sempre impondo um ritimo cadenciado à escrita, me surpreendeu ao falar de fé, pois pensei que iria mais para o lado obscuro ou falar sobre o “Lu” que vc tanto gosta (e eu tb depois de “Anjo”) tenho certeza de que até minha mãe vai gostar deste conto ela não gostou nada de “Anjo” rsrs.

    Brilhante inicio.

    Tenho passado por mals bocados em minha vida pessoal (tb sou um tatno relapso), mas me esforço para ficar sempre por dentro no que diz respeito a vc e ao André voltarei a ir aos encontros e tudo mais.

    Seu fã número 1 (pelo menos me considero assim).

    Helder

  17. Grande Helder!

    Valeu pélos comentários, obrigado. Quanto à sua presença, sempre é bem vinda, e é uma honra tê-lo como amigo e leitor, afinal, quem foi o fundador da comunidade ANJO A Face do Mal?

    Um grande abraço!

  18. Grande Nelson..
    Estou começando a ler sua minisérie, e ja identifiquei seu estilo aqui no começo. Excelente
    Grande abraço

  19. Valeu, Euclides!

    Você encontrará muitas surpresas no decorrer da trama e um final surpreendente.

    Abraços!

  20. muito bom mesmo……
    assim como relampagos de sangue….magnifico…e otima a ideia de postar num blog..

  21. Obrigado, Dielson! Valeu pelas palavras. Em breve, se inicirá uma nova minissérie.

    Abs!

  22. Olá, Magrini!
    Minha net tradicional fica um pouco melhor a esta hora, então pude vir aqui ler os trchos, como havia lhe prometido lá no Skoob.
    Gostei mto desse início, da narrativa.Senti algo nas linhas como tristeza e uma desgraçada esperança.
    Bem, vamos ao segundo =]
    Bjo!

  23. Valeu, Patrícia, obrigado pelo comentário. He he, vamos à parte dois; muita coisa ainda irá acontecer…

    Beijo!

  24. Gostei muito deste começo, foi excepcional

  25. Valeu, Alisson, obrigado. Espero que goste da trama inteira.

    Abraços!

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