FENRRIZ, de James Andrade

 

 

  

            O frio da madrugada deixa o úmido focinho do velho lobo gelado, quase um bloco de gelo, prejudicando o farejar.  Mas esse não é o seu maior problema. A neve, fofa em alguns pontos, engole suas patas e dificulta seus movimentos, deixando-o lento; na verdade mais lento. Desde que se ferira sua velocidade nunca mais foi a mesma. A dificuldade que tem para se mover também não é o problema.

            Fome. É isto que incomoda o velho lobo. Muito.

            Seu estômago reclama. Ronca tão alto que o barulho poderia denunciar sua posição para algum inimigo. Sorte que seus inimigos são poucos. Bem. Não tão poucos assim; não ultimamente; pelo menos estes não têm poder. São fracos. Os inimigos de verdade, os antigos, os poderosos, estes não existem mais. Estão mortos. Todos eles. O velho lobo sabe disso com certeza. Ele os viu morrer. Sentiu o gosto doce do sangue de cada um deles. Pensar em sangue fez sua fome aumentar.

            As reclamações do estômago vazio pioraram.

            Este inverno está sendo rigoroso, o mais cruel dos últimos tempos. O lobo já viu piores, a diferença é que nos outros a caça era abundante. E ele tinha dentes.

            Cansado, o velho lobo pára. Sente o ar. Esforça-se para identificar os muitos odores que o vento gelado traz. Tem dificuldades em fazê-lo. Ultimamente todos os cheiros tendem a ficarem iguais, uma mistura de fumaça e fezes. Mais de fezes.

            Suas grandes orelhas se levantam, seus pelos grossos e negros, muitos já prateados, eriçam. Ele se alegra. Uma presa. O vento trouxe uma promessa de comida na forma de um cheiro, tênue, mas inconfundível. Sangue. Ao Sul, só não sabe precisar a que distância, mas não deve estar longe.

            Antigamente o lobo saberia dizer, com exatidão, o tipo da presa e a que distância estava, saberia até se estava ferida ou não, mas isso foi antes, hoje se contenta em poder sentir o cheiro e saber a direção a seguir.

            Com renovado animo, o velho lobo salta, galantemente, por sobre os montes de neve. Seu corpo robusto e pesado levanta uma nuvem de pequenos flocos que brilham na luz do luar a cada salto. Lua cheia. Noite clara. E uma presa. Nos singelos detalhes o mundo parece de novo perfeito. Ele gosta destes momentos, da antecipação da caça, o faz sentir-se jovem. Cheio de vida. Pena que em poucos instantes seu fôlego fraqueja e ele se vê obrigado a diminuir o ímpeto da corrida.

            “Pelo menos, desta vez, não fiquei zonzo” – pondera o velho lobo.

            Perceber a fraqueza que o tempo lhe impôs entristeceu o velho lobo, como sempre fazia. Nestas horas ele se lembra do Caolho. Isso o ajuda a se animar.

            O Caolho foi, de longe, seu pior inimigo, o mais poderoso, mas, no fim, como todos os outros, também tombou. Não sem antes lutar, é claro. Batalha gloriosa. Sua maldita lança, que sempre acertava onde ele queria, penetrou fundo no lado esquerdo do lobo, pouco acima da pata dianteira, bem sobre o coração. Fatal. Caso o coração estivesse ali. Não estava. O lobo nasceu com um pequeno defeito; seu coração está alguns centímetros fora do lugar onde normalmente fica o órgão. Na certa coisa herdada do seu pai. Ninguém nunca soube disso. Nem o próprio lobo. Isso salvou sua vida, e condenou o Caolho, bem como aqueles traidores da raça que o defendiam. Todos os dois. Do ferimento só resta uma cicatriz enorme; e uma certa dificuldade para mover a pata.

            Bons tempos. Pensar neles alegra o ancião. Recordar o passado alegra a qualquer velho, pouco importa se ele é um lobo. Pena que não havia ninguém por perto para ouvir a história. Se seus inimigos caíram, seus amigos também se foram. Desde há muito o velho lobo caminha sozinho, sem ninguém para mastigar por ele.   

            Logo seus olhos divisam, ao longe, a silhueta de uma cabana.

            Uma construção simples; só troncos de madeira e uma cobertura de capim seco; em meio a uma clareira erma e desolada. O velho lobo pára. A certeza o atinge. A esta distância é impossível não distinguir o cheiro. É sangue de cordeiro.

            “Odeio cordeiros” – lembra-se – “não são confiáveis” – completa.

            Mas a fome é imperiosa.

            O velho lobo é forte; muito até, porém tudo que existe tem seus limites; os dele estão próximos. Já foram mais amplos, seus limites, hoje são risíveis; para ele pelo menos. Os cordeiros em muito são culpados disso; criaturas fracas, mas quando se juntam são capazes de fazer ruírem grandes fortalezas. Evitá-los tem sido uma boa coisa que o lobo tem feito até hoje. Algo que gostaria de continuar fazendo. Só que não pode, não desta vez. O cheiro adocicado de sangue empesteia o ar, enlouquecendo seus instintos.

            “Carne é carne” – conclui – “mesmo que sejam cordeiros asquerosos”.

            Um pouco incomodado o lobo busca se aproximar da cabana, com cautela. Em se tratando de cordeiros, todo cuidado é pouco. O lugar está muito silencioso, sem a costumeira algazarra que os animais domésticos costumam fazer. Não há sequer fumaça saindo pelos vãos das paredes da cabana. Parece abandonada. Dias ruins estes em que o lobo vive, primeiro foi a epidemia de cordeiros, que se alastrou por todos os lugares, corrompendo antigas crenças; agora é a fome que campeia livre pelo velho mundo, não poupando nada, nem ninguém. Ele não sabe dizer o que foi pior.

            Mesmo com a escassez de comida, que tem piorado ano após ano, os últimos dias foram excepcionalmente ruins. Já faz mais de dez dias que o lobo não encontra um osso sequer para roer. É como se uma nuvem de gafanhotos famintos fosse à sua frente, comendo tudo, não deixando nem mesmo migalhas para trás. Está cansado de só lamber gelo. Sua língua anda tão fria e amortecida que teme que ela caia.    Por isso, cordeiro ou não cordeiro, hoje o lobo vai comer carne.

            Orelhas em riste; pêlo eriçado; garras à mostra; movendo-se sem fazer o menor barulho; o lobo se aproxima da porta da cabana, que está entreaberta. A cada passo piora o cheiro de sangue, o que faz sua fome aumentar.

            O interior da morada; nada além de um retângulo sem divisões; está escuro. E tão frio quanto o lado de fora. A luz da lua, entrando pelas frestas nas paredes e na cobertura, criva a penumbra de lanças luminosas. O ar é sufocante; tenso. As palhas secas espalhadas pelo piso de terra batida se quebram sob o peso das patas do lobo, emitindo um barulhinho quase inaudível quando ele se move. Salvo por vários amontoados cobertos por um tecido rústico de cor marrom, que estão espalhados por todos os cantos, encostados nas paredes, a cabana está vazia. O buraco para o fogo estava cheio de cinzas. O velho lobo não viu nada disso. Desde o momento em que ela colocou as patas dentro da construção, a única coisa que percebeu foi o filhote. Nada mais. Seus olhos arregalados estavam como se enfeitiçados pela visão que tinha à sua frente.

Na viga central da cobertura. Suspenso por uma corda rústica. De cabeça para baixo. Um filhote de cordeiro. Tenro ainda; viu no máximo uma primavera. Morto. Recentemente. Não mais de um dia. Teve a garganta cortada. Seu sangue, já em vias de ficar negro, jazia em uma grotesca poça sob ele. Pequenas gotas ainda escapavam do profundo ferimento, intercaladas, indo se juntar ao pequeno lago que se formou no piso de terra, onde alguns insetos, vencendo o frio, zumbiam preguiçosos. Pedaços de palha boiavam em meio ao turvo líquido.  O filhote era macho, não tinha pêlos, só alguns, escassos, no alto da cabeça, e era gordinho, rechonchudo. Saboroso.

            A fome cegava o lobo para tudo que não fosse a carne e o sangue. Um rosnar rouco e profundo escapou de sua boca enquanto se aproximava do filhote morto que balançava ao sabor do vento que entrava pelas frestas, a rústica corda rangia hipnótica com os movimentos do pequeno corpo.   

            “Carne fresca” – era só o que estava em sua cabeça.

            De sua boca desdentada escorria espessa baba. Não precisaria de dentes para rasgar aquele couro macio, a força da sua mordida bastaria. Retesando os músculos, o lobo preparou-se para saltar sobre a comida que, como presente da divina providência, surgiu em seu caminho. Com um rosnado gutural, saltou. No mesmo instante um barulho similar ao ruflar de grandes asas ecoou dentro da cabana. E fantasmas surgiram ao redor do lobo. Fantasmas marrons. Seu coração, já agitado, disparou, inundando seu corpo de adrenalina, clareando seus instintos embotados pela fome.  Não eram fantasmas. Nem asas ruflando. Eram coisas ainda piores. Cordeiros. Adultos. Armados. Estavam escondidos sob os panos marrons que foram jogados para cima. Havia dezenas deles. Todos ostentando grandes cruzes vermelhas no peito, balindo ao mesmo tempo; se bravos ou assustados o lobo não saberia dizer. Num piscar de olhos o caos se instalou dentro da cabana; tudo acontecendo ao mesmo tempo.

            No meio do salto o velho lobo desistiu do filhote, passando por ele sem abocanhá-lo. Em pleno ar começou a se transformar. Esquecendo completamente a fome. Ao tocar no piso de terra já não era só um lobo, era algo mais. Apoiado sob as patas traseiras, que lembravam vagamente pernas humanas, virou seu corpanzil, encarando seus inimigos. Tinha mais que dobrado de tamanho. Sua cabeça agigantada tocava o capim seco da cobertura; as patas dianteiras agora eram braços alongados que terminavam em mãos enormes, de dedos disformes, munidos com garras pontiagudas. O velho Fenrriz nunca foi um lobo comum, muito pelo contrário e, mesmo sem dentes, ainda era um inimigo de valor, agora estes cordeiros insanos veriam isso. Saberiam da sua força, da sua selvageria. Um uivo animalesco se ouviu, suplantando todos os outros sons. Longo. Ensurdecedor. Seu grito de guerra. Houve dias em que isso seria o bastante para fazer tombar de medo um inimigo. Agora não mais.  

            A resposta ao uivo veio na forma de uma sinfonia de cordas retesadas se soltando. Bestas foram disparadas. Muitas delas. Dezenas de setas voaram, leves como plumas, na direção do velho lobo que acabara de se tornar uma mistura sobrenatural de fera e homem, mais de fera. Fenrriz as viu se aproximarem, atravessando os feixes de luar; a cada raio de luz um brilho fugaz. Prata. As pontas das setas eram de prata. Justo o metal que tanto mal lhe causava, feridas feitas com prata não saravam tão facilmente quanto as outras. Na certa sabiam disso.

            “Armadilha” – gritou o instinto do lobo. Pena que tarde demais.

            Bem lá no fundo, Fenrriz se recriminou por não ter percebido o engodo assim que chegou na cabana. Talvez seu tempo tenha realmente passado; que não há mais lugar para ele neste velho mundo que a cada dia se modifica. Fica pior. Inconscientemente desejou que, no outro mundo, seus dentes cresçam de novo. A longa viajem iria se iniciar. Só não queria que fosse assim, não na mão deles, que fossem outros a enviá-lo em sua última jornada em direção ao Valhala. Sempre imaginou que, na sua hora final, tombaria ante inimigos mais dignos, menos traiçoeiros. Com mais honra. Usar o filhote como isca foi muito torpe, até para estes malditos.           

            “Odeio cordeiros…” – pensou o velho lobo quando as setas de prata o atingiram.

 

FIM

 

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~ por jmodesto1 em 3 outubro, 2008.

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