AMMAZÔNHIA GLOBAL – PARTE 1/2, de James Andrade

 

 

 

 

            — Zero hora e um minuto.

            A voz metálica e monótona ficou ecoando nos ouvidos de Bit.

            — Não acredito! – Disse entre os dentes – merda, merda, merda… – começou a dar tapas na testa – ainda dá tempo, tem que dar, merda…

            No fundo sabia que não ia dar, estava atrasado, só não queria admitir.

            — Que horas são? – insistiu, torcendo para ouvir outra resposta.

            — Zero hora, um minuto, cinqüenta segundos – respondeu o 2i-g.

            Não havia ninguém no local combinado.

            — Merda! Liga pro C’F; seguro.

            — Criptografia ativada. C’F fora de área, opções: casa; point. Redirecionar?

            — Não, merda! O filho da puta me deixou pra trás, e agora? Que porra eu faço?

            — Opção 1: ligar para o resgate; opção 2: ligar para polícia; opção 3: ligar para a mãe…

            — Cala a boca, porra! Desativar resposta automática. Acessar GPS.

            — Posição atual: longitude…

            — Não carai; vocabulário customizado.

            — Cê tá no meio da merda da Ammazônhia Global, na margem esquerda do Rio Negro, longe pra porra da cyber-aldeia Serra do Sol; tempo estimado de caminhada até achar algum Ponto de Salto LHC, mais de 3 dias, isto é, se não topar nenhuma merda de eco-milicia; resumindo, cê tá fud…

            — Tá, tá. Stand by, saco – sabia que ia se arrepender de ter comprado este pacote de voz, devia ter gastado mais alguns créditos e comprado o da Dercy Gonçalves, era muito melhor que este do carcaju.

            Bit; nick-name de Augusto César Júlio Romano – seus pais eram partidários do neo-pós-renascimento – estava ferrado; pior ainda, tinha plena certeza de algo assim ia acontecer deste o princípio. Devia ter ficado de fora disso tudo; sabia que ia terminar em merda. Roubar água-doce na Ammazônhia Global. Loucura.  

            “Só o C’F pra ter uma idéia trash dessa” – pensou – “e só um idiota como eu pra topar, todo mundo sabe que a merda da floresta é perigosa; e eu odeio mato” – concluiu.

            O que não queria admitir era que a idéia tinha méritos. Arriscada. Mas boa. Desde a Crise da Água em 2116, quando se iniciou a dessalinização da água do mar para consumo, que o valor da água-doce só tinha subido sem parar. Água dessalinizada tem gosto de “xixi de égua”; Bit concordava, mesmo sem saber o que era uma égua; o gosto era horrível.

            Hoje em dia água-doce é um item raro. Tanto que desde 2097 a antiga Amazônia, maior reserva de água-doce do planeta, foi declarada independente do Brasil pela O.N.U. As nações indígenas que viviam na região assumiram o controle. Eles não eram “nações”, então nada mais justo que reivindicassem para si um território independente, um país. O resultado da contenda jurídica e das ações militares foi a Ammazônhia Global, mais conhecida com AG, uma nação independente; que só não se expandiu por toda a Amazônia sul-americana devido à forte resistência da Federação Chavviana; o Brasil não resistiu e perdeu sua parcela da floresta, e da água. Todos os rios foram bloqueados e a água rigidamente controlada. Desde então a política de vigilância das fronteiras só tem aumentado. Os eco-soldados não perdoam.

            Para piorar o Verde foi declarado sagrado em 2100; se bem que tecnicismos fizeram sacro só o Verde “verde”, acalorados debates jurídico-conciliares discutem o tema até hoje, a maioria das vezes as discussões acabam em mortes. Em 2101 o vegetarianismo foi considerado subversivo, um ano depois, crime hediondo; foi quando começaram os fuzilamentos.

            “Odeio verde” – resmungou para si mesmo.

            Bit estava sozinho dentro da maior floresta do mundo, e o silêncio era angustiante, não se ouvia o menor ruído. Toda a fauna estava extinta. Não existiam mais animais na Terra, de nenhuma espécie, não desde a Grande Liquefação, em 2102. Insetos inclusive. Cerca de 13,7% de toda a água-doce do planeta, que compunham os corpos destes espécimes, foi devolvida ao ciclo natural desta maneira. Só as vacas escaparam, mesmo assim uma subespécie de tamanho menor. O resto virou água.  

            Ajudou pouco, a população mundial atingiu 17,34 bilhões em 2015, as Políticas Sexuais datam desta época; em alguns países só se permite o sexo homo, em outros, nem isso. A Igreja só permite que seus fiéis façam sexo recreativo.  

            Desanimado, Bit tirou a mochila das costas e sentou-se na raiz de uma árvore enorme; fruto de reflorestamento biogenético, claro; abriu a bolsa e ficou olhando o conteúdo. Cinco garrafas de vidro, cheias da mais pura água do Rio Negro, a mais solicitada entre os hidrófilos. No black-ibay cada uma chegaria fácil a P$ 0,75, com um pouco de sorte, dependendo da oferta de mercado, podia-se vender por até P$ 1,00. Cinco Pesos Paraguaios. Uma fortuna, nunca tinha visto tantos créditos juntos. Pena que perdeu a hora do Salto LHC. E o vácuo passou, agora só amanhã.

            Tinha que esperar ali até que o C’F voltasse.

            O “vácuo” era uma minúscula falha no sistema de vigilância por satélites da AG; algo em torno de 0,34 segundo. Tempo suficiente para um “salto”. Uma anomalia randômica, que seu amigo conseguiu calcular com precisão. Um segredo que guardava como se fosse a própria vida. O C’F – nick-name de Carvalho Flores Terra – pais ultrapós-neo-hippies – estava usando este conhecimento para traficar água-doce, e se encher de créditos, muitos mesmo, chegou até a espalhar que estava comprando uma Relíquia, mas isso era só papo, ele não tinha tanto cacife assim, carros são para uma minoria da elite, todo mundo sabe disso; não tem milho para todos.

            — DEU MERDA!!

            O alarme do 2i-g, quebrando o pesado silêncio da floresta, assustou Bit, que, num espasmo, jogou longe a mochila. O som de vidro se quebrando chegou aos seus ouvidos, mas foi ignorado. Sua atenção estava toda voltada para o alarme.

            ­— Qui tá…

            ­— Acionar exo-traje de segurança – interrompeu a voz grossa do 2i-g – ativar a porra do laser de proteção em modo de auto defesa…

            Em segundos uma luz azulada envolveu o corpo de Bit; o seu campo de força pessoal estava ativado. Ao mesmo tempo surgiu, sobre a sua cabeça, um globo, de uns 20 cm de diâmetro, parecia ser composto da mesma luz do traje, uma Esfera de Ataque – EA – modelo civil.

            — Carai! Qui tá acontecendo aqui?

            — A merda do radar de aproximação foi acionado, múltiplos movimentos; mior dar no pé, rapidinho.

            — Eco-milicia?

            — Num tenho como saber com certeza, mas acho que não…

            “A água” – lembrou Bit, indo rapidamente até onde a mochila tinha caído, conforme se movia, a EA o seguia.

            Quebradas. O vidro usado nas garrafas é muito fino, não agüenta nada. “Os merdas dos puristas odiadores de plástico deviam saber disso” – pensou.

            — ESQUERDA!

            Bit se virou na direção indicada, um vulto se aproximava, parecia um animal, dos grandes, mas não podia ser. A EA efetuou um disparo.

            Um feixe de laser vermelho brilhou na escuridão, atingindo em cheio o alvo. Que continuou a se aproximar. A luz do exo-traje pulsava levemente quando algo a atingia; no momento estava piscando como um enfeite de ecuno-natal. Primitivas flechas e setas se quebravam contra a armadura luminosa. Bit nem as sentia.  

            — Luz! – ordenou Bit, com voz titubeante.

            Seu traje acendeu como se fosse uma lâmpada, criando um círculo iluminado em torno de si. Não eram animais; claro; eram homens, pelo menos pareciam; estavam nus e andavam curvados, como os gorilas que viu nos nano-cds de educação, no quarto dia de implante da Semana de Aprendizagem – SemA.

            Mais disparos. O globo atirava freneticamente para todos os lados. Bit estava cercado. Eram muitos; tinham o corpo pintado e se moviam em silêncio, nas mãos portavam o que pareciam ser armas primitivas, que usavam para alvejar a armadura; não causavam dano nenhum, a maioria dos projéteis nem acertavam. A EA, por outro lado, nunca errava um disparo – isso fazia parte da garantia do fabricante.

            Curiosamente nenhum deles caia ao ser atingido.

            O feixe avermelhado atingia em cheio, só que não fazia nada, nem a costumeira fumaça de carne sendo queimada subia, parecia que estava atirando em árvores – desde a Convenção do Haiti os lasers só podiam afetar carne; desse modo a santificada vegetação não seria afetada durante uma guerra – aquilo deixou Bit apreensivo.

            “Que tipo de ser humano resiste a um laser?” – se perguntava.

            As muitas lendas urbanas que ouviu sobre a AG invadiram seus pensamentos; a maioria falava de monstros que viviam na floresta. Monstros horrendos. Sempre deu risada destas histórias. Não estava sorrindo agora.

            A luz intensa do traje, surgindo de surpresa, pareceu afetar os agressores, fazendo com que recuassem. Por pouco tempo. Logo se acostumaram a ela e recomeçaram os ataques, só que, desta vez, nada silenciosos, começaram a gritar, enlouquecidos, sacudindo suas toscas armas no ar. Flechas zuniram. Os urros eram roucos, animalescos.

            A apreensão se tornou pânico.

Continua…

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~ por jmodesto1 em 31 outubro, 2008.

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