PACTO, de Juliano Sasseron (Convidado)

padre-copia

 

A lua nova no céu deixava a noite mais escura do que o normal.

– Ainda faltam três. Voltarei em breve. – disse um homem vestido de preto, após tocar a campainha à sua frente. Sua pele era alva e os cabelos dourados desciam até os ombros. Andou até a névoa, que se formava há apenas alguns metros de onde estava, e sumiu na noite, deixando uma mulher na porta da paróquia.

Ela tinha os olhos esbugalhados pela falta de compreensão. Não sabia o que estava acontecendo. Não se lembrava de nada. A porta se abriu. O padre olhou para a mulher parada na porta.

– No que posso ajudar minha filha?

Ela não respondeu. Estava confusa. As mãos manchadas de sangue.

O padre olhou, intrigado, para ela e voltou a fazer a mesma pergunta. Outra vez, não houve resposta.

– Qual o seu nome? – tentou outra abordagem.

Ela olhou para o chão enquanto respondia:

– Eu… não me lembro.

O padre a olhou, novamente, estudando-a. Ultimamente haviam acontecido fatos terríveis com alguns clericais, porém, como homem santo, não podia deixá-la sozinha, então pediu para que entrasse. Aparentemente, estava perdida ou sem lar. Preparou um banho quente e arrumou uma cama para a mulher. Tentou descobrir mais sobre ela, mas a memória ainda estava em branco. No dia seguinte, bem cedo, voltariam a conversar. Se não conseguisse nada chamaria um médico e, também, a polícia.

Limpa e confortável, a mulher fechou os olhos e tentou dormir. Sua cabeça fervilhava com a falta de lembranças. Em pouco tempo, mergulhava fundo nos sonhos. Em sua mente, viu o misterioso homem que a deixara na paróquia. Os olhos eram frios, sem vida e transmitiam rancor. O homem estava nu – a pele quase albina – se arrastando pelo teto. O corpo deslizava como uma serpente, enquanto sua boca espumava e um estranho líquido verde escorria pelos lábios. Um demônio, não podia ser outra coisa, pois aquilo era uma afronta à natureza.

A criatura voltou-se para ela e seus olhares se encontraram. Num segundo depois o homem já não estava lá. Ela começou a suar frio. Tremia de medo. Seus nervos estavam à beira de um colapso. Sentiu uma ardência entre as pernas. Desejo. Um fogo como há muito não sentia. Prazer. Era mesmo um sonho? Gemidos sensuais. Risadas satânicas. Pandemônio.

A mulher abriu os olhos e vislumbrou o volume por debaixo do lençol, entre suas pernas abertas e sente o líquido quente escorrendo em sua virilha. Lentamente puxa o lençol. Nada. Estranho.

Uma risada estridente direto em sua mente faz com que ela acorde e se levante. Caminha até a porta aberta e olha o corredor escuro.

Um vulto.

É ele! Sim, a mulher tem certeza disso. Os cabelos dourados e a pele extremamente branca são inconfundíveis. Deu um passo para trás e derrubou o abajur que estava sobre o criado-mudo. Voltou, rapidamente, para a cama molhada pelo seu prazer. Fez silêncio e escutou os passos que anunciavam a aproximação do padre.

O clérigo apareceu na porta.

O lençol camuflou a mancha.

– Tudo bem com você?

A cama espatifada não passou despercebida do olhar do missionário, que pegava o abajur do chão. Ela apenas fez sinal positivo com a cabeça.

– Que bom! Se precisar de alguma coisa basta me chamar!

Ela concordou, novamente, com um movimento de cabeça.

– Boa noite! – disse o padre, fechando a porta.

As sombras do quarto deram muito a que pensar, até que ela pegou no sono.

 



 

Uma conhecida catedral da cidade. Sangue nas mãos da mulher. O que estava acontecendo? Não se lembrava de nada. A notícia que passava nas televisões à venda, numa loja de eletrodomésticos em frente à igreja, prendia a atenção de todos. Mais um padre fora estripado.

“Quem faria uma coisa dessas?”, todos se perguntavam.

Havia um assassino à solta. Era o oitavo padre morto em menos de um mês. As pessoas diziam que isso era obra dos adoradores de satã. Talvez estivessem certas.

O líquido vermelho escorria das mãos da mulher. Um homem branco vestido de preto se aproximou. Seus olhos eram frios, sem vida. Os cabelos dourados balançavam a cada passo. Chegou perto da mulher e falou.

– Não se lembra de nada outra vez? – a voz era forte como o trovão.

Ela olhou assustada para ele. Não possuía nenhuma lembrança. Ele gargalhou. Sua risada era assustadora.

– Pegue e olhe!

O homem esticou a mão para ela. Havia vários jornais com anotações. Ela fez o que ele pedira, mas continuou sem entender.

– Mas o que é isso?

– Você!

Assassinatos. Os jornais estavam relatando as tragédias que abatera sobre a igreja. Padres foram mortos de forma brutal.

– O quê?

– Você fez um pacto comigo!

– Quem é você?

– Tenho muitos nomes, mas isso não vem ao caso!

– Mas do que você está falando?

– Fama, dinheiro e sucesso! É isso que você pediu para sua vida. Em troca, faz o que eu mandar!

Ela olhou, novamente, para os jornais. Sangue, Tripas, Corpos mutilados. “Não é possível, estou ficando louca!”, pensou. Ergueu os olhos para o homem à frente.

– Não faria uma coisa dessas!

Então a imagem de um sonho voltou. Um homem nu deslizava pelo teto, como se fosse uma cobra. As lembranças começaram a voltar.

– Você fez, e fará outra vez! – disse o demônio – Ainda faltam dois! Voltarei em breve!

 

 

FIM

 

 

Sobre o Autor

 

JULIANO SASSERON – Engenheiro Agrônomo e também escritor, escreveu seu primeiro livro com apenas 18 anos. Boêmio, adora fazer novas amizades e ter contato direto com os leitores. Autor da obra CRIANÇAS DA NOITE (Editora Novo Século), escreve livros de suspense e de fantasia, sempre que possível colocando ingredientes puramente brasileiros. Costuma freqüentar feiras de livro para divulgar seus trabalhos e conhecer novas pessoas. Possui muitas páginas escritas, inéditas, as quais espera, um dia, compartilhar com os leitores.

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~ por jmodesto1 em 9 janeiro, 2009.

23 Respostas to “PACTO, de Juliano Sasseron (Convidado)”

  1. Ju…vc como sempre arrasou!!

    Amigo vc manda muito bem…viu?

    Continue assim…fofo!

    Bjux
    de sua amiga…

    Naninha

  2. É isso aí Sasseron!
    Conto muito criativo… e meio assustador.
    Parabéns e muito sucesso.

  3. Nossa q medo…..td bem Jú?? Jah tinha ouvido falar q vc escrevia bemm, mais não pensei q fosse tanto…agora fiquei curiosa pra ler seu livroo…huahauhau!!!!
    PARABEÉNSSS viu menino??
    Um bjuuu

  4. Fala serio hein
    vc não cansa não (ainda bem)
    só não digo que esse foi o melhor conto seu
    que eu li porque seria uma fronta ao livro “Crinaças da noite)
    (ALIAS QUEM NÃO LEU TA ESPERANDO O QUE PRA LER!!!!!!!!)
    Tudo bem que vc pegou no meu ponto fraco….ADORO DEMONIOS E ODEIO PADRES RSSRRSRS.
    Espero grandes coisas no proximo livro depois de ler esse conto
    JULIANO!!!!!! JULIANO!!!! JULIANO!!!!!!!

  5. Adoramos o conto, mas isso já era esperado hehe. Mais uma vez, parabéns pelo talento, torcemos por ti! Muito bom mesmo!Sucesso! Bjão!

  6. Muito legal Juliano, adorei, adorei mesmo, criativo e real. Vou passar pro meu amigo Francisco , aquele que te falei que adora contos e livros desse estilo.
    Agora preciso ler “crianças da noite”
    Abraços.

  7. Valew mesmo pessoal.. de coração…
    Ahh, Leonardo, eu ainda to me adaptando a escrever conto, portanto…
    Já que vc gosta de demônio, vc iria curtir meu primeiro livro (ABENÇOADO?)… to revisando ele pra ver se consigo fazer uma segunda edição…

  8. Amor…
    Eh,vc sempre surpreendendo a todos,neh?
    Cada dia q passa te admiro mais, por seu modo cativante de ser!
    Vc é muito especial pra mim
    Parabéns por mais uma conquista
    Tô sempre torcendo por vc,fazendo de vc um reflexo pra minha vida
    Te amO
    Beeeijo
    Laah

  9. Juliano,
    mandou muito bem ! apesar que vc sempre surpreendendo com seu talento!!!
    vai em frente voce tera um futuro brilhante…
    Adorei seu conto assustador!! PARABENS…

    Sucesso…

  10. JU….
    Interessante e bastante assustador seu conto!
    Perfeito pra sentir uns arrepios!
    Mostra mesmo esse dom abençoado que vc tem!…..e publica mais livros que eu tô louca pra lê-los!!!!
    Suas “dores de cabeça” valem muitooooooo a pena viu!!!rs…..
    Parabéns!
    Te adoro muito!
    Beijos

  11. Novamente Juliano me encantando com sua escrita, imagina quando eu ler o Abençoado … Heheh
    Cara, adorei seu conto, mistério, suspense …
    Acertou de novo meu gosto, heheh, pena q eh curto heheh, ( Eu, e meus pedidos de continuações, heheh )
    E concordo com o Leonardo, Odeio padres, heheh, gostei de eles serem estripados, hsahsushuashuashsauhsausahuhsauhsausahusahusss
    Vlw, por novamente, como eu disse, me encantar com seus livros e contos !
    Grande Abraço e Parabéns !!!

  12. Juuu…
    Ta de parabéns menino!Mandou bem no conto!
    Adoreeeei!
    Muito sucesso pra você!

    Beijo

  13. Bom conto cara.
    É isso mesmo. Escrever, escrever, escrever…

    Vi que você mencionou que está treinando com contos agora. Começou bem.

  14. Adorei a forma com vc resgaata a primeira cena no final e explica o que, de fato, está acontecendo com a mulher. Muito bom! Realmente o mistério prende! Parabéns, Juliano.

  15. Oie.
    Gostei muito do conto muito criativo, assim como o livro “Crianças da Noite” sempre gostei do gênero, mas confesso que preferia os filmes pois achava os livros muito grossos e de leitura massante, mas o seu foi tranquilo, li em poucos dias e adorei a historia.
    Achei muito interessante a maneira como escreve, continue assim e sucesso pra vc!

    Bjos

  16. Um conto digno do grande autor que é o Juliano Sasseron. Envolvente, criativo e instigante. Meus parabéns!

  17. Meu jovem, excelente conto. Sua ficção é leve e faz com que prenda o leitor. Doce e boa de ser lida. Como você j´asabe, sou escritor também, mas em generos diferentes: sou romancista, poeta e cronistas. Mas é sempre um prazer conhecer novos desafios da escrita, seja por meio do real ou não. Da ficção ou do quase real, isso, levanta varias hipotese e agracia nossos conhecimentos. Por isso que leio todos os generos… Um grande abraço e obrigado pelo carinho>

    Mas uma vez, o meu parabéns pelo belo conto. Irei indicar o site a mais pessoas…

  18. Parabéns, Juliano.

    Conto muito bem delineado. Curto e preciso.

    Abraços

  19. Olá Juliano…
    puxa rapaz.. é em uma hora como esta que eu agradeço por não ser padre… 🙂
    História horripilante. Gostei muito!
    Parabéns e escreva sempre!!!

  20. Que jóia… fico muito feliz com os comentários.
    É uma honra ler essas palavras de incentivo feitas por amigos queridos e grandes escritores.
    Afetuoso Abraço!!!

  21. Parabéns mais uma vez Juliano!
    Espero que continue escrevendo e compartilhando
    sempre. Seu brilho é intenso de mais.. e acredite,
    ele vai longe!

    beeijos

  22. Gostei meu amigo! Parabéns!
    Com tanta dedicação você chega lá e esse conto mostrou o seu talento! Espero ver outros…
    Abração meu amigo e desejo-lhe toda a sorte em sua carreira como escritor!!!

  23. Adorei o conto… bem original… bem Juliano, rs*… só tive a sensação q talvez vc quisesse detalhá-lo mais, ñ sei… mas ficou ótimo.
    beijo grande

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