O DEUS MORTAL¹, de J. Modesto

 deus

 

            Certo dia, Olorum, o Deus Supremo, resolveu que era chegado o momento de criar algo diferente de tudo que já tinha feito e teve uma idéia magnífica. Iria criar um ser que fosse igual aos deuses, só que mortal. Todavia, como era o Deus Supremo, não se dignava a exercer tarefas manuais. Então, para isso, mandou chamar Oxalá, o Deus Criador. Apressado, Oxalá correu a apresentar-se diante de Olorum, curioso em saber o que ele queria.

            – Oxalá, te chamei aqui porque é o deus certo para realizar o desejo que tive! – disse o Deus Supremo.

            Em respeito, Oxalá moveu a cabeça afirmativamente, sem, no entanto, exprimir uma palavra sequer.

            – Você é o mais criativo dos deuses! – disse Olorum, enchendo o ego do Deus Criador – Por isso quero que crie o homem!

            – Homem? – perguntou Oxalá, sem ter qualquer noção do que Olorum estava dizendo – O que vem a ser isso, Grande Deus?

            – Um ser quase igual a nós, só que mortal!

            – Um deus mortal?

            – Quase isso!

            Oxalá enrolou-se em seu manto branco e começou a pensar, enquanto coçava a cabeça.

            “Eis aí um belo desafio: Criar um ser igual aos deuses, mas diferente!”, ponderou, retornando imediatamente ao seu lugar de trabalho, ainda confuso e cheio de dúvidas.

            – Muito bem, vamos lá! – disse ele ao chegar em seu ateliê – Se o homem dever ser tal como os deuses, o farei todo de ar!

            Mas entre dizer e fazer tem uma distância muito grande, até mesmo para Oxalá.

            Conforme trabalhava, as dificuldades foram surgindo e a matéria-prima mostrou-se arredia, sempre lhe escoando por entre os dedos. Mas Oxalá era um deus persistente e tanto insistiu que, finalmente, conseguiu modelar o primeiro ser humano.

            – Magnífico! – disse ele, afastando-se um pouco para contemplar o seu trabalho.

            Com a vaidade inata do artista, Oxalá levou sua obra para o sol para que pudesse melhor admirá-la. Quando os raios do astro-rei vararam a criatura, dos pé a cabeça, o deus foi obrigado a admitir que não fizera o homem a contento, pois conforme o ar aquecia, maior ele ficava.

            – Transparente demais! Balofo demais!

            Mas o verdadeiro defeito revelou-se em seguida. O homem-balão começou a falar e não parava mais.

            – Basta, cabeça-de-vento! – disse Oxalá, farto do falatório da criatura e, com um simples safanão viu-o explodir e sumir numa fração de segundo. Um ruído e um fedor foi tudo que restou do primeiro e mal fadado ser humano.

            Voltando ao seu ateliê, o deus partiu para sua segunda tentativa, agora utilizando-se de um elemento líquido.

            – Um ser todo feito de água! – disse ele, a manusear alegremente, dentro de um grande tanque, uma porção generosa da matéria-prima colhida no rio.

            Mais uma vez, entretanto, o elemento escolhido mostrou-se também rebelde, mas nada que sua habilidade e persistência não conseguisse domar.

            – Ponto, ei-lo vivo!  – disse o deus retirando o homem-água de dentro do tanque.

            Eufórico, Oxalá levou a criatura para fora do ateliê a fim de mostrar-lhe as belezas do universo.

            – Este é o seu novo lar! – disse o deus, mostrando o mundo como um enfático mestre-de-cerimônias.

            Sim, lá estavam as andorinhas a gorjearem, bem como os graciosos gaviões a devastarem seus ninhos. Lá estavam os fihotinhos de sagüis a brincarem alegremente, bem como um leopardo a segurar um dos macaquinhos entre suas presas! Lá estavam as ovelhas a tomarem sol, bem como o tigre rajado a espreitá-las! Então, Oxalá observa que a criatura não parece desfrutar de alegria. Está infeliz.

            – Ora, por que estás assim? – perguntou o deus ao ver brotarem dos olhos gelatinosos do novo ser uma porção de gotas pequenas como pingentes. Uma careta de terror e, imediatamente, surge em sua mascara aquática.

            – Mas que medos são esses? – questionou o deus que, alarmado, viu o homem-água começar a vazar inteiro pelos olhos e pelos orifícios inferiores.

            Oxalá, então, tentou vedar os vazamentos, mas nada impediu que o homem-lágrima se liquefizesse inteiro aos seus pés. Uma grande poça d’água foi tudo que restou do segundo e malfadado ser humano.

            Frustrado, Oxalá volta para sua mesa de trabalho e parte para uma nova tentativa, agora com pedra. Mas o resultado também não é o esperado.

            – Cabeça dura! – disse ele ao ver que era impossível meter-lhe uma única idéia na cabeça.

            Nova tentativa, agora se utilizando da madeira, e novo fracasso. A criatura revela-se quase tão cabeça dura quanto o de pedra. Além do mais, tinha uma cara de pau extremamente repulsiva e em menos de um mês, já estava todo comido pelos cupins.

            – Fogo! – bradou, de repente o deus – O próximo será de fogo!

            Recolhendo do sol uma enorme labareda, Oxalá se pôs a trabalhar sobre ela com grande afinco. Mesmo sofrendo uma porção de queimaduras, o deus acabou por triunfar.

            – Aí está! O homem feito de fogo! – disse, pulando de alegria.

            Todavia, nuvens começaram a se formar por sobre a cabeça do criador e de sua criatura – a quem o terror começou a deixar amarelada. Antes que Oxalá tivesse tempo de achar uma solução, desabou uma chuvarada, fazendo o novo ser humana passar de homem-fogo, para homem-fumaça e de homem-fumaça para homem-coisa-nenhuma.

            Sem mais saber o que fazer, Oxalá se deu por vencido.

            – Basta de homens! – gritou o deus, como uma solteirona despeitada.

            – Que berreiro e esse? – disse a voz que vinha às suas costas.

            Virando-se, Oxalá torceu o nariz ao ver sua ex-esposa aproximar-se, deixando atrás de si um grande rastro de lama.

            – O que quer aqui, preta-velha?

            – Preta-velha é a mãe! – disse a austera figura, que não era ninguém menos do que Nanã Burucu, uma das deusas mais antigas e veneradas do universo. Habitante das águas, Nanã era a Senhora da Lama que acumulava no fundo dos rios.

            – Vá embora e me deixe em paz! – pediu o deus.

            – Não farei isso até que me diga o porque do berreiro!

            Oxalá suspirou. Estava cansado de suas tentativas frustradas. De repente, o deus vislumbrou a possibilidade de alguma ajuda para solucionar o seu problema e, nesse instante, o tom de sua voz se acalmou.

            – É que não consegui cumprir uma ordem de Olorum, Nanãzinha!

            Assumindo a postura de deusa sábia e benevolente, Nanã resolveu esquecer os modos rudes de Oxalá e ajudar o ex-companheiro. Depois de escutar-lhe toda a história, Nanã disse que tinha a solução perfeita para ele.

            – Muito, bem! Vou ajudá-lo!

            Feliz, Oxalá caiu de joelhos diante da deusa e beijou-lhe os dedos das mãos.

            – Pretinha-velha, você ainda é a maior!

            – Preta-velha é a mãe! – disse irritada, mas logo acalmou-se – Fique aí que eu já volto!

            Dali a pouco, a deusa retornou com um saco enorme de lodo retirado, e fartamente adubado, dias antes do fundo do lago. Oxalá ficou olhando, sem sair do lugar.

            – Mexa-se! Não vai ajudar-me? – disse a deusa, ainda mais curvada por causa do peso de sua carga.

            Oxalá, como quem desperta, prontamente correu a recolher o saco marrom e gotejante.

            – O que faço com isto? – perguntou o deus com um ar de paspalho.

            – Coma, idiota! – disse Nanã diante da pergunta que Oxalá fizera e, antes dele responder, acrescentou – Faça o homem!

            Ainda indeciso, Oxalá olhou outra vez para o saco, sentindo um cheiro estranho.

            – É terra, estúpido! – disse a deusa – Faça logo o que tem que fazer!

            Então Oxalá trabalhou e, para sua surpresa, viu surgir de suas mãos um ser durável e quase perfeito. Feliz, foi correndo levar sua obra até Olorum que, com um sopro, injetou-lhe vida e movimento.

            De fato, a nova criatura ficara tão bem feita que logo começou a dar-se ares de obra-prima da criação, obrigando a Nanã a moderar-lhe o orgulho com uma desagradável notícia.

            – Toma tento, homem-argila, pois assim como vieste do barro, ao barro hás de voltar!

            E foi assim que, segundo algumas más vozes, o homem foi criado de alguma plantação adubada e que, na casa de Nanã Burucu, podia-se ver um saco de estrume consumido pela metade.

 

FIM

 

¹ Este conto foi baseado numa lenda africana que conta a criação do homem pelos Orixás. O autor apenas vez uma versão da referida lenda.

Anúncios

~ por jmodesto1 em 30 janeiro, 2009.

2 Respostas to “O DEUS MORTAL¹, de J. Modesto”

  1. Brilhante como sempre! Lendo esta bela adaptação, acabei lembrando de algo que os meus filhos seguido dizem e que transfiro agora, ao amigo J.Modesto:
    – Quando eu crescer, quer ser tão grande e sábio quanto você!

    Um forte abraço!

  2. Muito bom.
    Criei recentemente um blog de literatura, e estou aprendendo a escrever, é legal ler os contos de outras pessoas e aprender com a experiência.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: