O PORTADOR DA LUZ – PARTE 6, de Nelson Magrini

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– … o exército d’Ele está pronto e confiante, e a ti, pecador, a punição se abaterá sem clemência!

Francisco interrompeu a gravação com um gesto brusco e desligou a tv. Com aquela, já eram mais de uma dúzia de fitas, repletas daqueles discursos, todos iguais em conteúdo, mas cada vez mais inflamados e diretos.

O agente se levantou e embalou a gravação. O coronel Campos fora bem claro, quanto a querer todas aquelas falas devidamente registradas. Renan, cada vez mais explícito, prometia punição aos pecadores, e esta era a questão que estava lhe tirando o sono. Manifestar esse tipo de pensamento, com as palavras utilizadas, não consistia crime de incitamento à violência. Sempre havia a desculpa de sentido figurativo, além do fato de que pecadores é algo bastante genérico. Mas para Francisco, e o coronel concordava com isso, era exatamente aí que residia o perigo. De acordo com Renan, qualquer um poderia ser um pecador, e mesmo que de maneira pouco explícita, ele tomava para si, a questão de apontar quem eram os que cometiam os pecados, e isso poderia se tornar muito perigoso.

Ainda que lhe fosse impossível deixar as inquietações de lado, sentou-se à mesa e começou a redigir seu relatório.

 

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O escritório encontrava-se quase às escuras, um gosto adquirido a alguns anos, em suas peregrinações. A penumbra o atraia e o acalmava, e mesmo, fazia-lhe fluir os pensamentos. Sentado em uma poltrona, de costas para a entrada, e observando lugar algum, em uma parede nua, o homem simplesmente aguardava.

Assim que o advogado de tantos anos abriu a porta, Renan acenou-lhe para que entrasse, sem ao menos se voltar. Não era necessário, sabia quem era o visitante. Àquela hora, ninguém mais apareceria por lá.

– Tudo concretizado? – perguntou, dirigindo o olhar, agora, às janelas e fitando a cidade do alto.

– Tudo realizado. O pessoal do Casimiro não quis arriscar, e desta vez, acobertou toda operação, com uma verdadeira rede de despistamento.

Renan emitiu um riso abafado.

– Eles são deveras eficientes, não?

– De fato, Ministro, de fato.

– Penso então que posso contar com nossos homens?

– Está correto. Temos os melhores do ramo, em postos estratégicos, além de centenas que são totalmente dedicados à causa.

Renan se levantou e caminhou até as grandes divisórias de vidro. Cada vez mais lhe fascinava, observar a cidade à noite. A metrópole era tal como um grande animal selvagem, que serpenteava e se contorcia a todos os lados, mas isso já não tinha importância; sabia que cabia a ele domá-la, lhe trazer ao arreio, amarrada e domesticada a seus pés, para quando, enfim, se curvariam aos pés d’Ele.

– Ótimo! A Passeata pela Palavra se realizará daqui a uma semana. Apesar do evento se concentrar na cidade do Rio de Janeiro, muitas outras capitais já se mostraram dispostas a promover evento semelhante, e mesmo, muitos municípios do interior de diversos estados. Como lhe disse, não duvide da força d’Ele. Ele está junto a nós, e tudo o que vem acontecendo, apesar de um pequeno revés, só nos prova a verdade desta afirmação.

Renan contemplou o céu escuro.

– Reserve algumas armas e faça com que cheguem às mãos dos mais exaltados – disse após um tempo.

– Acha prudente, mesmo após o incidente da apreensão?

Finalmente, Renan se voltou para o advogado. Sua face expressava serenidade.

– Adalberto, não há com o que se preocupar. Alguns incidentes serão benéficos, para darmos uma amostra de quem somos. E quanto a nos ligarem a essas questões, ou mesmo a igreja, sempre podemos alegar que é impossível de se controlar uma multidão, ainda mais de cidadãos indignados com todas as afrontas à moral e bons costumes, e o afastamento dos mandamentos d’Ele. Todavia, reforce a solicitação de policiamento e apoio.

– Não creio que eles nos darão mais do que já deram.

– Pois é exatamente por aí! – exclamou Renan, esboçando um largo sorriso. – Estamos solicitando mais atenção, por partes das autoridades, preocupados em uma reunião de tais proporções. Obviamente, não nos darão ouvidos, e quando os incidentes ocorrerem, bem… creio que qualquer cidadão ficará indignado com tal atitude descabida, por parte dos responsáveis pela segurança pública.

O advogado assentiu com a cabeça.

– O senhor está certo, Ministro, como sempre.

– Eu não, Adalberto; Ele. Ele está certo sempre.

 

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– …e agora, voltamos ao vivo do Rio, com Márcia Callabro; boa noite, Márcia!

– Boa noite, Abelardo; boa noite, telespectadores. Continua dramática a situação aqui no Rio de Janeiro, bem como em diversas cidades brasileiras. Temos muitos feridos, muitas pessoas ilhadas pela multidão, refugiadas em bares e outros estabelecimentos, aqui no centro do Rio de Janeiro.

– Alguma vítima fatal, Márcia?

– Até o momento, de acordo com o Comando da Polícia Militar, não, Abelardo. Inclusive, há pouco, falei com o Capitão Tenório, encarregado do policiamento aqui do Rio, e ele nos garantiu que não há vítimas fatais, apesar dos abusos desmedidos, que vêm ocorrendo.

– E Márcia, o Comando da Polícia já tem uma previsão de quando tudo se normalizará?

– Olha, Abelardo, conforme o informe que nos foi passado, há poucos minutos, a polícia espera debelar os manifestantes e liberar as pessoas, ilhadas pela massa, nas próximas horas. Mas o que se vê por aqui é uma verdadeira massa de guerra. Os manifestantes mais inflamados já entraram em conflitos com os policiais, promovendo um verdadeiro quebra-quebra pelo caminho, tendo como principais alvos os bares e casas lotéricas, acusados de promover o jogo e a desordem. Alguns conhecidos pontos de prostituição também foram atacados, e uma clínica, suspeita de realizar abortos, foi completamente destruída, pela massa. Incitadas pelas palavras de feito de José Cândido Renan, conhecido como O Ministro, da Igreja da Luz e da Revelação, após uma pregação de mais de uma hora no Maracanã, onde a multidão de fieis estava reunida, a massa saiu em passeata, aos brados de dignidade moral e respeito à família e a religião. Mas logo os policiais, designados para o acompanhamento da peregrinação, observaram o aumento da exaltação, por parte de alguns integrantes, e logo, a violência tomou conta de transeuntes e freqüentadores de bares, acusados de conspurcar a pureza e de compactuar com o Diabo e… atenção, Abelardo, neste momento está chegando a Tropa de Choque. Como podemos ver nestas imagens exclusivas, a Topa de Choque foi chamada e agora, está liberada para atuar.

– Você consegue alguma informação mais detalhada, Márcia?

– No momento, estamos sendo convidados a deixar o local e seguirmos para abrigos, mas vamos continuar por aqui, Abelardo, e a qualquer instante, voltaremos com novas informações. Do Rio de Janeiro, Márcia Callabro.

– E a qualquer momento, voltaremos do centro da cidade do Rio de Janeiro, com novas informações de Márcia Callabro. A direção da Igreja da Luz e da Revelação ainda não se manifestou a respeito dos tumultos, que estão ocorrendo em vários municípios pelo país. É você, Júlia.

– Obrigada, Abelardo. Complica situação com reféns, em Minas Gerais. A seguir, após nossos comerciais.

 

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– E vamos, ao vivo, com Saulo Furlan, a Itajubéva, município de Minas Gerais, localizado pouco mais de quarenta quilômetros de Germinade. Boa noite, Saulo.

– Boa noite, Júlia. A situação aqui em Itajubéva se encontra em um impasse. Assim como em muitos municípios brasileiras, um grupo significativo de pessoas, que acompanhavam as imagens da pregação de João Cândido Renan, saíram em passeata, após a concentração deixar o Maracanã, no Rio de Janeiro. A princípio, estas pessoas contornariam as principais ruas da cidade e terminariam a passeata, apregoando cartazes e faixas. Contudo, há aproximadamente duas horas atrás, eles se depararam com a igreja local, e parte dessa multidão, os mais exaltados, por sinal, cercaram a igreja e acabaram por invadi-la, aos brados de vendidos e fiéis do Demônio, tomando como reféns o padre e alguns freqüentadores. Pelo que se soube, tal fato se deve pela realização do bingo dominical, tido como um pecado extremo, por aqueles que condenam qualquer tipo de jogo.

– E qual a situação neste presente momento, Saulo. Você disse há pouco que havia um impasse.

– A situação é crítica, Júlia. Há pouco mais de meia hora, depois de várias negociações fracassadas, a polícia local tentou invadir a igreja, contida por manifestantes do lado de fora. Dezenas de pessoas foram presas, inclusive, temos a confirmação de apreensão de armas de fogo. Em retaliação, agora o grupo no interior da igreja ameaça atear fogo à construção, o que pode provocar uma verdadeira tragédia. O Corpo de Bombeiros já foi acionado, mas encontra dificuldades para chegar até o local, verdadeiramente tomado por centenas de pessoas, a esta altura. De Itajubéva, Minas Gerais, Saulo Furlan.

 

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Dele era o fruto e dele seria a colheita.

O pensamento lhe ressoava prazeroso pela mente e lhe aquecia o corpo, esquecido e largado por sobre a cama, no quarto totalmente às escuras.

Sabia que se encontrava longe, mas podia jurar que ouvia os brados da multidão, a multidão que inflamara, à suas palavras.

Talvez ouvisse.

E isso o engrandecia.

Aquela era a primavera que floria, após o longo inverno. Sua palavra era poderosa, e os que a escutavam, se revelavam empolgados, dignos a se ajoelharem perante Ele, e assim, cumprir-lhe os desígnios. Apesar de não serem totalmente inocente – quem o seria? – estavam prontos a responder ao chamado a que foram conclamados, com altivez e virtude, com força e submissão.

Submissão. Esta era a palavra que procurava.

Uma lágrima lhe aflorou aos olhos, e por mais incrível que fosse, transparecia felicidade.

Seu país, seu povo, e principalmente, os pecadores, todos descobririam o significado de ser submisso a Ele.

Em breve, seriam resgatados do cativeiro do Mal, libertados do poder do inimigo. Muito em breve, todos os pecados seriam redimidos, na luz da chama e no trovoar das palavras.

 

 

 

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~ por jmodesto1 em 7 fevereiro, 2009.

10 Respostas to “O PORTADOR DA LUZ – PARTE 6, de Nelson Magrini”

  1. À exemplo de toda a série O Portador da Luz, este sexto capítulo, envolvente e tenso, de tão bem escrito e desenvolvido, ao final nos deixa curiosos para o próximo e com aquele gostinho de quero mais… Meus parabéns Nelson!

  2. Valeu, Márson, obrigado.

    Fico feliz que esteja gostando. E muitos acontecimentos inesperados ainda vêm pela trama.

    Abraços!

  3. O mais perturbador nesta série é que se trata de uma ficção que pode se tornar realidade.

  4. Olá meu amigo e parceiro do suspense!
    Tenho acompanhado a saga do Portador da Luz (aliás, um nome bastante apropriado né?), e tenho gostado muito. A história traz muita criatividade e o texto está muito bem escrito. Parabéns e sucesso!

  5. Grande Leonardo!

    Valeu e obrigado. De fato, o nome é bastante apropriado, e na parte 8, com a revelação do mistério por detrás do Raio e o Trovão, ele ficará ainda mais claro.

    Abraços!

  6. Grande Fernando Silva!

    Fico muito contente que esteja acompanhando e gostando de O Portador da Luz. A trama, por ser ficção, irá a limites, mas como você bem observou, nada que não possa se tornar, um dia, real. E é aí que reside o assustador e perturbador da história.

    Grande abraço!

  7. O drama está sensacional meu caro Nelson, bem ao seu estilo!!
    Um grande abraço!

  8. Obrigado, Zé Paulo. Sei que você é bastante crítico quanto à leitura, e fico contente que está sendo de seu agrado.

    Um abraço!

  9. Quem seria, de fato, “Ele”?!
    Nossa, mto loco esse cap… principalmente porque algumas coisas do tipo acontecem com mta frequencia aqui no Rio, rs, me senti assistindo ao JN que jamais assisto por esse mesmo motivo 😛
    Mas, enfim, é por aí :/ me lembrei de alguma passagens tétricas e reais que ocorreram por aqui: quando o exército teve que tomar conta das ruas (e não uma única vez); do dia de terror promovido pelo Beira-Mar há alguns anos (havia até corpos estendidos na rua, mas isso a imprensa não mostrou, seria terrivel dmais) e, mais recentemente, a série de pequenos atentados por causa do Rio 2016 (tentaram até descarrilhar trens por aqui).
    Então, Magrini, o que vc está escrevendo neste conto NÃO é ficção… e é aí que reside o terror.

  10. Oi, Pat!

    Um amigo meu disse coisa bem parecida. O terror reside na proximidade do real. Valeu pelo comentário.

    Beijo!

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