O PÁSSARO DOURADO – PARTE 2, de James Andrade

 corvos2

            Pena que ele irá esquecer. Isso sempre acontece.

            Quando, já ao longe, escuta a escandalosa sirene avisando que a balsa está saindo, o homem se encontra perdido em outros pensamentos. A nota mental já era.  

            Ele está cansado.

            E não é pelo tempo que passou jogando squash em uma academia que fica no centro de Kristiansand, na Noruega.

            Não, aquilo não deu nem para suar. Não é um cansaço físico. É algo que nem ele mesmo pode explicar muito bem o que é, mas que sente, é como uma mão apertando seu coração, uma mão grande e forte; não é de agora que ele sente isso, já faz algum tempo. Muito tempo. E piorou com o que aconteceu durante o jogo; o que o leva a pensar se já não é hora de mudar de academia, muitas pessoas se reuniram para vê-lo jogar, o que não é nada bom. Nada mesmo.

            É sempre assim.

            Em todo lugar que vai ele sempre tenta ser o mais discreto possível, isto é, tanto quanto pode ser discreto um homem que tem 2,03m de altura e mais de cento e trinta quilos de peso, distribuídos de forma caprichosa por todo seu corpo de músculos definidos, tudo isso envolvido em uma pele branca, com um leve bronzeado natural, encimado por cabelos revoltos, longos e amarelos. Um conjunto dos sonhos de qualquer atleta, para piorar tem os olhos, azuis, tão intensos quanto o mar, que fazem mulheres suspirarem e homens odiarem, se bem que, nestes tempos mudados, é difícil dizer se é isso mesmo o que acontece.

            Mesmo assim ele tenta ser discreto.

            Homens altos, loiros e de olhos claros não são bem uma novidade por aqui, na terra dos vikings, mas tem dias em que é impossível evitar que certas coisas aconteçam, hoje, por exemplo, foi um destes dias.

            Como sempre, jogou sozinho, prefere assim, sem adversário, é mais seguro; para o adversário, é claro.

            Só que jogou por mais de três horas seguidas, sem descanso, e sem errar uma única rebatida, e eram rebatidas fortes, tanto que o eco de suas pancadas chamou a atenção de todos que estavam na academia, e atraiu uma leva de curiosos. Ele nem percebeu que estavam assistindo, só parou porque a bolinha estourou. Foi aí que viu a parede da quadra com o reboco caindo em muitos lugares, e sentiu o olhar das pessoas, um olhar onde se misturava uma gama de emoções, que iam desde a admiração até o medo.

            O medo predominava, ele sabia. Sempre dominava; aquilo já tinha acontecido antes, por isso que, mesmo morando em Hirtshas, na Dinamarca, agora freqüentava uma academia na Noruega, tão longe da sua casa.

            Em todas as outras nas proximidades da sua casa; na verdade em toda a cidade; aconteceram “incidentes” similares. Algumas barras de ferro retorcidas; o levantar de uma quantidade exagerada de pesos; estourar sacos de pancadas, isto é o que mais aconteceu.

            E agora, bolinhas de squash.

            Depois de hoje ele tem que encontrar uma outra academia ainda mais longe. Logo não restará mais locais onde poderá se exercitar sem chamar a atenção. O que está cada vez mais difícil de acontecer.

            Às vezes considera a idéia de construir uma academia em sua casa, lá tem muito espaço e não é muito caro, não para ele, mas sempre desiste, já sai tão poucas vezes que, se não fizer suas caminhadas e exercícios fora de casa, aí sim ele ficará louco, emparedado em sua própria casa, sem forças para sair. Enterrado vivo.

            Isso sempre o assustou. É a única coisa capaz de levar o verdadeiro temor ao seu coração de guerreiro. Ninguém sabe disso; até seu amigo sabe-tudo desconhece esse detalhe.

            O homem suspira. Este é um segredo que guardou durante toda a vida, sempre temendo que algum inimigo descobrisse e usasse isso contra ele. Agora se vê pensando se não devia contar isso a todo mundo, quem sabe assim alguém tentaria alguma coisa contra ele, mas quem?

            Seus inimigos estão todos mortos. Talvez este seja o problema. Para que serve um guerreiro sem uma guerra?

continua…

 

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~ por jmodesto1 em 27 fevereiro, 2009.

Uma resposta to “O PÁSSARO DOURADO – PARTE 2, de James Andrade”

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