O PÁSSARO DOURADO – PARTE 3, de James Andrade

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            A lebre se levanta sobre as patas traseiras e aguça suas longas orelhas, seu coração está acelerado, mais do que normalmente estaria, ela tenta ouvir tudo ao seu redor, forçando ao máximo seus sentidos, buscando pressentir o porvir. Ainda está muito claro para sair da toca, e ela parece saber disso, mas a fome é imperiosa. Ela precisa comer, não pode se dar ao luxo de esperar que o Sol se ponha ainda mais e que a escuridão chegue de verdade. Já é tarde e, mesmo em meio aos perigos da noite iluminada, a lebre procura pelo alimento que a manterá viva por mais um dia. A ditadura da sobrevivência. A qualquer custo. Não há nada a fazer.

            A lebre não pode negar seus instintos.  E faz bem em ter medo.

            Ela não está sozinha.

            Ao longe, olhos negros, que são como abismos sem fundo, fitam a pequena lebre. Garras longas e recurvas se cravam ainda mais no galho onde estão pousadas, riscando a madeira, deixando sulcos por onde a seiva escorre. O Corvo se agita. Ele sente o medo que emana do animalzinho como se fosse algo sólido.

            Seus instintos gritam dentro dele. O Corvo se excita pelo o que está para acontecer.

            Ele não é um pássaro comum, longe disso, não há nada de seus pares nele. O Corvo tem nome.

            Ele se chama Munin, o último dos Corvos de Odin, ele é a Memória do antigo Deus da Magia dos povos Nórdicos; mas mesmo ele não pode resistir aos seus instintos mais básicos.

            Não pode, ou não quer. Isso só ele sabe. E não diz.

            Penas lustrosas e negras como o azeviche se eriçam ao sabor da corrente de ar que passa por elas. No instante em que a lebre se convenceu que estava segura e abaixou a guarda, o Corvo atacou.

            Com um gesto brusco ele deixou o galho onde estava pousado e abriu suas majestosas asas.

            Garras em riste, olhos fixos na presa.

            Seu coração se acelera e todo seu corpo se prepara para o impacto eminente. Ele já pode sentir o cheiro do sangue, o gosto da carne, a chegada da morte estampada nos olhos da vítima. Os olhos sempre são a melhor parte.

            O Corvo se compraz, antevendo o que irá fazer.

            Inesperadamente um borrão dourado invade seu campo de visão, algo se move na direção onde a lebre está, com uma velocidade quase similar à sua. Ele ainda pode ver o exato momento em que a lebre se apercebeu da sua situação e esboçou uma fuga, mas já era tarde demais para ela.

            Num piscar de olhos, sua presa não estava mais lá.

            As garras de Munin afundam na terra e se fecham sobre a relva, arrancando pedaços de mato. Mudando a posição de suas asas o Corvo reduz sua velocidade e pousa.

            Com a ira fervilhando dentro de si, nublando de vez a razão que seus olhos espelham, ele procura o responsável por aquela afronta. Um furor mortal eriça suas penas, fazendo com que pareça ainda maior do que realmente é. Um grasnar alto e rouco ecoa por entre as árvores, evidenciando sua frustração.

            Ele lutará.

            Não pela carne, que talvez nem lhe seja realmente necessária; nem pelo sangue, que ele não verteu, e que era um direito seu; nem pelos olhos que seriam o seu festim; mas pelo respeito violado.

            A presa era sua. De direito.

            A raiva do Corvo aumentou ainda mais quando viu que o intruso não se escondeu, nem tampouco procurou se afastar, muito pelo contrário; continuou ali, fazendo círculos precisos e graciosos no céu sobre ele. Um céu que rapidamente se torna cinza escuro.

            O intruso é uma águia, quase tão grande quanto o corvo, de belas e sedosas penas douradas que, mesmo na luz que mingua, reluz.

            O que, para o Corvo, nada significa. A carne de uma águia é tão saborosa quanto a de uma lebre, e o sangue tão espesso quanto.

            E os olhos são ainda melhores.

continua…

 

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~ por jmodesto1 em 27 março, 2009.

2 Respostas to “O PÁSSARO DOURADO – PARTE 3, de James Andrade”

  1. Tão bom quanto os anteriores… Meus parabéns, James.

  2. Grato, Márson.

    Espero que goste da continuação…

    T+

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