O PÁSSARO DOURADO – PARTE 4, de James Andrade

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            Antes que o Corvo se lançasse aos céus e cobrasse a afronta cometida com suas poderosas garras, algo inusitado aconteceu. A águia soltou sua presa, que, com um baque surdo, caiu a poucos metros do Corvo.

            Uma oferenda.

            Surpreso, o Corvo observou quando a ave pousou em uma rocha próxima. A distância entre eles era, ao mesmo tempo, amistosa e segura, a águia não quer se arriscar, afinal ambos são predadores. Matadores.

            E entre tais seres sempre há uma mistura de medo e respeito. E muita desconfiança.

            Mais calmo, o Corvo observa melhor e percebe que a águia não é daquelas paragens, não é nativa das frias terras do norte. Constatar isso o deixa um pouco apreensivo.

            O seu tamanho e a cor de suas penas a denunciam como sendo oriunda da região da Hélade, a terra dos Aqueus, que chamam Grécia.

            O pássaro dourado está perdido.

            Não sabe onde está e nem como voltar para a sua terra, pouco sabe de como chegou até este lugar, só sabe que se encontra faminto, por isso atacou a lebre sem se ater se outro já a tinha como presa.

            E o Corvo percebe o significado da oferenda.

            A fome e o cansaço do pássaro são enormes, mas ele propõe trocar, de bom grado, a refeição que pode salvar sua vida pela ajuda de como sair dali e encontrar o seu lugar.

            A águia prefere morrer tentando voltar para onde tudo faz sentido, do que viver em meio àquilo que desconhece.

            A penumbra que envolve os dois pássaros se intensifica, nada resta do Sol do que uma linha vermelha no horizonte.

            Uma comunicação sutil se estabeleceu entre as aves.

            Com o farfalhar de suas longas penas douradas a águia levanta vôo. Ele já tem a informação que necessita para achar o caminho para sua terra, resta saber se terá forças para chegar lá.

            O Corvo aceitou a sua oferta e, mesmo sabendo que não ia mais tocar na lebre, ficou com ela.

            Ele não irá comer não por que outro a abateu, mas porque não lutou por ela, por isso não tem direito à carne, mas a águia, mesmo merecendo o seu respeito, também não poderia comer, não sem antes lutar.

            De onde o Corvo vem, isso faz todo o sentido.

            Com olhos indiferentes ao destino que terá a águia grega o Corvo a observa partir.

            A noite finalmente se envolve em trevas. E o frio, que já era intenso, piora ainda mais.

            A águia já está longe, o Corvo não pode mais vê-la, mesmo assim continua a fitar a direção que ela tomou. Estático o Corvo olha, mas nada vê, nada que seja deste mundo. Ele não olha mais para este mundo, ele olha para além dele. Seus olhos negros estão tomados pelo que parece ser uma densa bruma, e sombras se movem em meio a ela. Sombras difusas e disformes. O Corvo olha para dentro da vastidão escura que existe além desta realidade, e, em meio a ela, busca entender o que acabou de vivenciar, busca ver o significado que existe por trás de cada acontecimento.

            Busca ver os augúrios. Decifrá-los. Entendê-los.

            Assim é a Memória de Odin, o passado é um livro aberto para ela. Quase tudo aquilo que um dia aconteceu, ela sabe, tanto neste mundo quanto em outros. Poucos são os eventos que permanecem ocultos ante seu olhar perscrutador. O olhar que ele usa no momento.

            Saber do passado, ver nele as nuances que ligam um evento ao outro, e as conseqüências que eles geram, permitem que o Corvo trace suposições para o futuro.

            O Corvo Munin não pode “ver” o futuro, mas pode estar preparado para ele.

            Sem aviso, ele levanta vôo em meio à noite escura.

 

 

 

continua…

 

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~ por jmodesto1 em 24 abril, 2009.

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