O PÁSSARO DOURADO – PARTE 5, de James Andrade

 corvos5

 

            É noite. A sala está às escuras. E fria. O vento gelado que sopra lá fora entra livremente pelas janelas abertas. A lareira, apagada, de nada vale. Nenhum ruído se ouve, é como se o cômodo estivesse vazio.

            Mas não está.

            Sentado em um banco de couro, de frente para a lareira, está um homem que um dia foi um guerreiro, sentado é modo de dizer, o correto é jogado. Ele está assim desde que chegou da academia; esquecida em um canto está uma sacola esportiva, dentro dela uma toalha sem uso, uma raquete de squash com várias tiras estouradas e restos de uma bolinha. E um tênis tamanho 50 que também rasgou.

            Ele, o homem, tem os olhos cerrados, mas não está dormindo, apenas se deixa ficar em meio às trevas. Taciturno, pensa em navios de carvalho com cabeça de dragão; não só pensa, ele se lembra deles; dos barcos que hoje chamam de Drakkar, que quer dizer “Dragão”, mas o nome que lhe vem à mente é Skeid “o que corta a água”; sim, eles eram velozes, como o vento.

            “Quase duas vezes mais rápidos que uma ridícula trirreme romana”[1]. – ele pensa.

            Ele lembra dos dias e noites sem fim, quando a costa da Ilha da Bretanha era só uma promessa difusa e longínqua, dos mares bravios, das ondas furiosas quebrando praticamente dentro do barco, dos brados de desafio às águas escuras que seus companheiros gritavam, do sal em sua boca, do vento em seus cabelos… E do riso farto em seus lábios. Ele costumava sorrir. Muito. Tem certeza que não faz mais isso. Imerso na melancolia, pensa até que se esqueceu de como sorrir.

            Há algo de mórbido em sua tristeza.

            Com alarde, quebrando o silêncio monástico do lugar, um pássaro entrou pela janela.

            O homem esparramado no sofá o ignorou, sequer abriu os olhos, e, mesmo se os abrisse, teria dificuldade em vê-lo. As penas do pássaro são tão negras que ele praticamente se funde à escuridão, só o seu poderoso bater de asas denuncia a sua presença, e o seu tamanho incomum, mas o homem não se importou com a sua chegada, e continuou a pensar em barcos-dragões…

            E dragões que não eram barcos.

            Nem mesmo quando o enorme pássaro pousou no encosto do sofá onde estava escarrapachado o homem lhe deu atenção, mas não deixou de notar o som de suas garras perfurando o couro do móvel.

            Mau sinal.

            “Olá Siegfried – disse o soturno pássaro, sem palavras – vejo que retornou da tua labuta diária; mas dize-me, o que fazes em meio às trevas? Porventura treinas tua visão para o breu? Buscas enxergar tão bem nele como as crias do Dragão?”

            Siegfried ouve as palavras diretamente dentro da sua cabeça e, ouvir seu nome, o deixa ainda mais melancólico. O peso de ser quem é em um tempo em que não tem mais serventia o esmaga; nem mesmo a provocação sobre o Dragão o faz reagir.

            “Chamar aquele chupador de Dragão é uma ofensa, se algum dia ele encontrar um dragão de verdade, certamente perderá seus caninos amarelados. Pena que isso nunca acontecerá; já há muito eu matei o último dos dragões” – pensa Siegfried.

            Mas nada diz.

            “Preferes o silêncio? – continuou o pássaro – Veja como são zombeteiras as Norns[2] , no começo eu era obrigado a voar para longe só para me ver livre da tua ladainha incessante, e hoje, quando sinto necessidade de falar, tu te fazes de mouco”.

            — E em represália você destrói os móveis da casa… – resmunga Siegfried, ainda de olhos fechados.

            — Oh! Mil perdões My Lord Viking, não foi minha intenção, é que meu cérebro de passarinho não é capaz de observar as fendas do tempo e ter cuidado com a preciosa mobília ao mesmo tempo, tentarei só pousar sobre tu daqui para frente, pelo menos a tua pele não poderei danificar.

            “Viking! Pois sim. Ser viking[3] era uma ocupação para gente comum, camponeses que trabalhavam no inverno e se reuniam no verão para escaramuças e pilhagens, eu nunca fui viking, eu era um maldito huskalars, um guerreiro profissional, me pagavam para estar sempre de prontidão, alguns chegavam a pagar só para não me ter por perto”. – pensou Siegfried. 

            Mas preferiu continuar calado; e ignorou tanto a ironia quanto a provocação. Já se acostumou com isso.

            Munin sempre foi assim, mal-humorado; um grande amigo, totalmente confiável, mas de difícil convivência. Ele nunca admitiu, mas deve sentir muita falta do irmão, Hugin, e de Odin também, a morte de ambos o abalou muito, afinal, um vínculo incomum os unia; eles eram praticamente um só ser[4]. Deve ter sido isso que deixou o Corvo assim, azedo. Mas também pode ser que não, vai ver ele sempre teve a língua mais afiada que o bico.

            Sobre o Corvo nunca se pode afirmar nada.

 

 

 

continua…

 


[1] O Drakkar (ou Skeid), é o mais conhecido dos barcos de guerra viking, e alcançava velocidade de 22km/h; uma trirreme romana (barcos de guerra dotados de três linhas de remos) não ia além dos 12km/h.

[2] As Norns, na mitologia nórdica, são as três Deusas do Destino, e se chamam Urdur (o Passado), Verdande (o Presente) e Skuld (o Futuro).

[3] Viking, na antiga língua nórdica, significava “pirata”, ou ainda “bandoleiro”.

[4] Os Corvos Munin e Hugin eram, respectivamente, a Memória e o Pensamento do deus nórdico Odin. 

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~ por jmodesto1 em 22 maio, 2009.

2 Respostas to “O PÁSSARO DOURADO – PARTE 5, de James Andrade”

  1. James….
    Por acaso achei uma referecia sobre o seu livro na net. Parabens.
    qual o seu msn.
    Só para lebrar aqui é o Eduardo (boy da Master Plan..
    Meu msn é: eduardo.c.costa@hotmail.com

    • Como você está, Edu? Cara! A quanto tempo; muito bom te reencontrar, vou te mandar um mail para papearmos…
      Até mais!!

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