O PÁSSARO DOURADO – PARTE 6, de James Andrade

 corvos6

 

            Munin é a Memória encarnada do deus nórdico da Magia. E magia é sempre enigmática.

            Hermética, como preferem alguns.  

            Mesmo assim Siegfried percebe que alguma coisa está errada, Munin está mais tenso do que o seu normal, o que já é, por si só, ruim.

            Pelo visto o dia não foi bom para nenhum dos dois.

            — Eu estive lá. – Siegfried começa a falar bem baixinho, quase murmurando – Em Vinland[1], você sabe, o Novo Mundo. Muito tempo antes de Colombo, antes até da própria Espanha, eu e meus companheiros pisamos naquela terra. E derramamos o sangue daquela gente estranha. Eu… estive lá.

            “Sim, tu estiveste”. – concordou o Corvo, buscando um tom mais ameno.

            — Já fiz proezas inacreditáveis – continuou Siegfried – lutei batalhas épicas; derrotei inimigos que se diziam imbatíveis; estive em tantos lugares; vi tantas coisas. Conquistei glórias que fariam inveja ao próprio Thor[2]. Já fui alguém importante. Já fui grande. E agora? Olhe para mim; o que restou?! Diga-me, Munin, Corvo de Odin, quem sou eu?!

            Um pesado silêncio se seque à pergunta.

            “Tu és Siegfried, filho de Siegmundo; forjador da espada Nothung; matador do dragão Fafner, cujo sangue fez de tua pele invulnerável; intocado por Hela[3]. Olho para ti e vejo um guerreiro invencível, que atravessou eras, mas que resiste ainda em se adaptar aos novos tempos… E que precisa urgentemente de uma fêmea para acasalar”.

            O silêncio perdurou por mais alguns minutos, mas foi impossível para Siegfried evitar o sorriso.

            Leve, pouco mais que um arquear de lábios, mas um sorriso.

            — Não sei o me agrada mais em você, meu amigo de negras penas, a sua sensibilidade para os problemas alheios ou seu humor refinado – disse Siegfried um pouco mais animado – Ah! Você esqueceu de dizer uma coisa sobre mim; eu falo com pássaros, não aqueles como você, mas os outros, os comuns, essa habilidade veio junto com o pacote no sangue do safado do Fafner.

            Havia ainda uma outra coisa que o Corvo disse que não era verdade, e Siegfried percebeu, mas preferiu não comentar.

            Ele não era o forjador da espada Nothung. Não. A espada que fez nas forjas de Mime se quebrou pouco antes dele encontrar a Nothung. Siegfried não tem certeza, mas sempre desconfiou que ela, Nothung, é a espada perdida de Frey[4], aquela que, a um simples desejo de seu dono, espalhava a morte. Ele nunca conseguiu comprovar suas suspeitas, e nunca comentou isso com ninguém; isso é outra coisa que o Corvo não sabe. Talvez.

            “Fico feliz em ver que te fiz ao menos abrir os olhos e me fitar – disse o Corvo – agora sobe e tira estas tuas estranhas vestes, uses algo mais formal, pois hoje teremos visitas”.

            — Visitas, a esta hora? Espero que sejam as fêmeas das quais você falou, até que não é uma má idéia, valquírias para mim e harpias[5] para você…

            O humor de Siegfried aos poucos retornava, o incidente na academia já estava sendo esquecido. Mais uma vez ele enterrava fundo suas angústias, que ficariam à espreita, esperando outro acontecimento qualquer para lhe assaltar o coração. Desde há muito tem sido assim, só que, nos últimos tempos isso tinha acontecido com mais freqüência.

            E o Corvo percebia isso.

            Só não sabia como ajudar o amigo. Ultimamente Munin estava às voltas com suas próprias preocupações. Alguma coisa estava acontecendo, o Corvo podia sentir, mas não sabia o que era, e isso o afligia.   

            Com calma, Siegfried se levantou do sofá e foi até a lareira. E a acendeu. Chamas pequenas e hesitantes lançaram uma luz mortiça na sala.

            “Temo que nosso convidado não seja assim tão… apreciável”. – disse o Corvo, reassumindo um tom mais soturno.

            — Convidado? Seria por acaso aquele seu amigo magricela, o indiano? Até que seria bom revê-lo, ouvi dizer que ele tem umas amigas maravilhosas. Como é mesmo o nome dele? Rabi?

            “É Rajá! Barthari Rajá – responde o Corvo – mas não é o indiano que os auspícios disseram que viria, eles falaram de outro, acho que da terra dos Aqueus, mas não tenho certeza, nosso convidado me é desconhecido, não sei ‘quem’ ele é, sequer sei ‘o que’ ele é”.

            Como num passe de mágica Siegfried se transformou, toda a melancolia, toda a angústia, todas as dúvidas que o atormentavam desapareceram, e o guerreiro que ele sempre foi veio à tona.

            Munin se alegra, esta é, para o Corvo, a maior qualidade do amigo, não importa qual seja o seu estado emocional, assim que algo incomum se anuncia, o guerreiro que há nele desperta. Pena que, passado o momento de tensão ele volte a ficar macambúzio.   

            — Um estranho!? Você viu sua chagada nas entranhas? – perguntou Siegfried.

            “Não foi necessário nenhuma evisceração; ainda a pouco encontrei uma águia de penas douradas perdida na floresta. Uma águia grega”.

            O Corvo relata ao amigo o inusitado encontro que teve na floresta, e a leitura que fez do acontecido.

            “Alguém virá, de muito, muito longe e pedirá, ou oferecerá, ajuda contra algo, ou alguém, não posso dizer com certeza, mas alguém virá e nós teremos que decidir o que fazer”.

            E tal decisão, teme o Corvo, poderá selar o destino de ambos, mas isso ele não diz ao amigo, mesmo porque ele não poderá fazer nada, Munin acredita que aquilo que o aflige a tantos anos finalmente ameaça tragá-los para uma teia de eventos que dificilmente poderá ser evitada.

            E Siegfried já tem problemas demais.

            — Então é melhor tirar este agasalho esportivo e me vestir com esmero, gregos costumam ser muito rigorosos quanto à etiqueta e outras tantas bobagens, em muitos aspectos eles se parecem com você, que pode parecer um corvo agourento, mas que é um apreciador das boas maneiras – disse Siegfried, saindo da sala – você sabia que eles, os gregos, contam lendas sobre um guerreiro que era muito parecido comigo? Sua pele também era invulnerável e tudo o mais, mas tinha um ponto fraco, no calcanhar eu acho; lugar besta para um ponto fraco. Gostaria de ter lutado com ele, seria uma luta digna de odes e poemas, mas dizem que ele morreu em uma guerra, na tomada de uma cidade de altas muralhas; o que mostra que sou um herói maior do que ele, não é mesmo? Afinal, ainda estou vivo, não concorda comigo Munin? – a voz vinha de longe, ele já estava na escada que dava acesso ao segundo andar da casa.

            “Nenhum herói resiste a uma vida longa, e a sua, meu amigo, tem sido muito, muito longa”.

            Pensou Munin, mas não disse nada.          

 

 

continua…

 


[1] Vinland, suposto nome nórdico para as Américas, mais precisamente, para a América do Norte.

[2] Thor, na mitologia nórdica, era o Deus do Trovão e o filho mais velho de Odin.

[3] Hela (a Morte), filha do deus nórdico do Mal, Loki, ganhou de Odin (ou foi forçada a aceitar) o poder sobre os Nove Mundos de Niffleheim (as Trevas Geladas).

[4] Frey, na mitologia nórdica, era o deus que tinha poder sobre a chuva; sobre o brilho do Sol e sobre todos os frutos da Terra.

[5] Harpias, seres da mitologia greco-romana, tinham face de mulher e corpo de abutre e, em algumas versões, suas penas eram de aço.

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~ por jmodesto1 em 26 junho, 2009.

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