IARA, de Ronaldo Costa

YARA2

       Jen saltou do fly-bus e correu através da rua movimentada. O holograma, projetado no alto da antiga catedral, mostrava vinte e duas horas. Na pressa, chocou-se contra um transeunte distraído, o qual cruzou seu caminho. Esbravejou, sugerindo ao desconhecido que tirasse a máscara que limitava seu campo de visão. O alerta de nível tóxico havia sido suspenso há quase uma semana e, ainda assim, inúmeras pessoas insistiam em se proteger. Aquele, definitivamente, era um mundo regido pela paranóia.

       Avançou, com passadas largas, cortando a grande praça central, adornada por uma infinidade de esculturas metálicas abstratas, das mais variadas formas e tamanhos. A chuva, fria, começou a cair. Acelerou ainda mais o ritmo.

       Uma das amplas telas de cristal líquido, espalhadas por quase todas as esquinas da cidade, transmitia notícias sobre uma pequena área verde, ainda não devastada, encontrada em alguma ilha da Oceania. Contudo, Jen não se deteve à informação; seus pensamentos estavam fixos no computador e na mulher com quem esperava falar em poucos minutos.

       Subiu as escadas apressadamente. Passou defronte a entrada dos outros apartamentos até alcançar o seu, no final do corredor. Passou o cartão de identificação na lateral da porta e esta se abriu. Jogou a jaqueta molhada sobre uma poltrona e sentou-se diante do monitor. Ao seu comando vocal, este acendeu, assim como a luz alaranjada do cômodo.

       Seus dedos dedilharam freneticamente o teclado. Era difícil conter sua ansiedade. A suavidade daquela voz ainda ecoava em sua mente; ecoara ao longo de todo o dia. Acessou um endereço restrito na web e digitou sua senha. Percorreu a lista de nomes e enviou uma mensagem. Tamborilou com os dedos na perna, torcendo para que ela estivesse on-line. Bebeu o restante de uma lata de energético esquecida sobre a mesa, na noite anterior, e aguardou.

       Riu, com nervosismo contido, ao analisar sua situação. Não era nenhum novato em chats ou em cyber-zones de sexo virtual. Relacionamentos à distância eram mais seguros, todos sabiam. Aqueles eram tempos estranhos e poucas pessoas podiam ser consideradas inteiramente confiáveis.

       Coçou o queixo, a barba por fazer. Ponderou acerca do que estava tencionando. Expor-se, levar um contato para além da área virtual. Isso o deixava intranqüilo. Conhecia as regras, os riscos. As histórias. Todas as histórias. Ainda assim, sentia-se compelido a ultrapassar a barreira.

       Friccionou uma mão contra a outra e deliberou sobre a possibilidade de desligar o computador e esquecer toda aquela loucura. Havia conectado somente duas vezes com ela. Não conhecia mais do que seu primeiro nome e nem tinha a certeza de que este era verdadeiro. Era absolutamente insensato o que pretendia fazer.

       Levantou-se e começou a andar, de um lado para outro, dentro dos limites da sala. Relembrou, com detalhes, a suavidade de sua face e… a voz. Doce. Penetrante. Encantadora. A voz. Não podia deixar de ouvi-la. Desejava nunca mais esquecê-la. Uma espécie de feitiço, um agradável toque de loucura. “Eu quero você”. As palavras repetiam-se em uma sucessão infinita, a mesma frase sobrepondo-se constantemente, tomando todo o espaço, excluindo da mente qualquer outro pensamento.

       Uma luz piscou no canto inferior do monitor. Jen sentiu as mãos frias e o coração palpitar. Quatro letras surgiram na tela: Iara. Estava preso; sem saída, sem razão. Com um salto, sentou-se na cadeira e teclou. Palavras brotaram de seus dedos: puras, insanas, sinceras, desconexas. Sua mão tremia. Precisava concentrar-se, resistir, entregar-se. Por completo. Para sempre. 

       A imagem do rosto formou-se à sua frente. Um sorriso. Suor escorrendo pela testa. Três palavras: “Eu quero você”. Quando? Onde? Agora!

       A mão trêmula anotou o endereço. Ela despediu-se com uma promessa.

       Jean tornou a vestir sua jaqueta e correu. Saindo do edifício ganhou a noite, ainda chuvosa. Não conseguia pensar em mais nada. Sua mente era um único desejo, seu corpo um único desejo. Acenou para um táxi e partiu. 

       Subiu os degraus. A porta da casa estava entreaberta. Uma mansão, a julgar pela fachada. Adentrou em uma sala escura e silenciosa. Na piscina, ela disse que estaria. Aos poucos, seus olhos foram acostumando-se à pouca luminosidade. Seguiu em frente, sentindo um misto de incerteza e excitação. Seus ouvidos perceberam, ao longe, um gotejar cadenciado, água em um pequeno chafariz. Dois pares de Vitórias-Régias flutuavam. Extintas, ele sabia. Pouco importava; apenas a voz preenchia seus pensamentos. Um chamado. Delicado. Irresistível.

       Alcançou um amplo jardim, com flores que jamais sonhara ver. Em seu centro ela o aguardava, debruçada sobre o beiral da piscina. Bela. Fascinante. Encantadora. Seu olhar era um convite e seu sorriso uma benção. “Venha”, murmurou. “Não tenha medo”. Jen aproximou-se, emudecido, perplexo. Um último instante improfícuo de lucidez fez com que retornasse à razão, tarde, quando as mãos da mulher, transformadas em garras, seguravam fortemente suas pernas.

       Sentiu o corpo afundando na água fria, cristalina. Pensou ter visto a longa cauda de um peixe, mas seus pensamentos eram confusos.

       Não teve medo. Não esboçou nenhuma reação. Permaneceu imóvel, mesmo quando a boca, repleta de dentes afiados, fechou-se em seu pescoço. Percebeu o corpo ser puxado para baixo, a água entrando nos pulmões e um filete de sangue afastando-se, rumo à superfície.

       Pouco a pouco, tudo se tornou escuridão. No final, havia apenas uma voz, uma doce canção. 

FIM 

NOTA DO AUTOR – Quando fui convidado a participar com um conto (e me senti muito honrado), pensei que deveria criar algo novo, especialmente para esta ocasião. A idéia de uma sereia cyberpunk já gravitava na minha mente por algum tempo; então, decidi que havia chegado a hora de lhe dar vida.

       Iara, Mãe D´água: a versão da sereia de nosso folclore nacional. Fiquei imaginando como sobreviveria em uma megalópole, oprimida em um mundo futurista onde as florestas e lagos haviam desaparecido completamente. Imaginei sereias adaptadas à modernidade, enfeitiçando incautos navegadores (da Internet), com sua doce voz, em chats de conversação.

       O resultado é o que você acaba de ler.

Sobre o autor RONALDO COSTA – Escritor e médico, não necessariamente nessa ordem. Publicou um livro de contos em 2006, chamado “Primaveras Silenciosas” e vários contos espalhados por algumas coletâneas. Atualmente vive em Santa Catarina.

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~ por jmodesto1 em 17 julho, 2009.

3 Respostas to “IARA, de Ronaldo Costa”

  1. nunca tinha visto mas é muito legal

  2. Excelente conto! Meus parabéns, Ronaldo!

  3. Fabuloso!!! A sua idéia de transformar a folclórica Iara em uma sereia contemporânea tornou o conto envolvente, surpreendente e original. Parabéns pela criatividade e continue nos “presenteando” com seus textos.

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