O PÁSSARO DOURADO – PARTE 7, de James Andrade

 corvos7

 

            A noite, sem lua, está ainda mais escura que o normal, e mais fria também. Gelada. O vento, incremente, sopra ruidoso, tão cortante que é como se fosse composto de lâminas invisíveis. Lâminas de gelo.

            O homem que se aproxima da casa que fica no alto de uma colina não se importa com nada disso.

            Nem com a escuridão, nem com o frio.

            Suas roupas são finas e caras, uma camisa de cor clara, quase branca, de mangas compridas, uma calça de bom corte, de cor escura, quase marrom e sapatos esportivos da mesma cor. Estava vestido para um jantar informal na Riviera Francesa, no verão, e não para uma madruga gelada na Dinamarca. Só que parecia não estar com frio; se estava, não demonstrava.

            Não fosse o silvar do vento o lugar estaria mergulhado no mais absoluto silêncio. O homem parece gostar disso, tanto que não produz o menor ruído ao caminhar, era como se seus pés nem sequer tocassem o solo. Com passos seguros, que mostram alguém confiante e determinado, o homem se aproxima de uma imponente porta de madeira, de aspecto sólido e antigo, do tipo que costuma ser encontrada em igrejas antigas, ou em castelos. No centro da porta, uma aldrava que lembrava a cabeça de um dragão.

            Ele leva a mão para anunciar a sua chegada, mas não chega a tocar na peça de metal. Antes disso a pesada porta se abre.

            E surge um gigante, que ocupa quase todo o vão da porta.

            Pele clara, olhos coloridos, cabelos longos e amarelos. Estivesse o grandalhão com um elmo de chifres e um machado nas mãos seria um viking perfeito. Em tudo o homem que surge em meio á pouca luz que vem de dentro da casa lembra um germano, aqueles das antigas lendas, guerreiros fortes e tenazes, capazes de proezas inacreditáveis.

            Capazes de matar dragões.

            O recém chegado esboça um sorriso.

            Ele não está assustado com o que aconteceu; do fato de sua chegada tão silenciosa ter sido notada pelo dono da casa. Sequer está surpreso. Está sim é contente. Nem mesmo quando um imenso corvo, de penas tão escuras quanto a noite, pousa no ombro do homem de cabelos amarelos e o encara com olhos negros e profundos ele se abala.

            O seu sorriso se alarga.

            Ele sabe que veio ao lugar certo. Encontrou aqueles que procurava. 

            O visitante não é tão alto quanto o germano, na verdade é bem mais baixo, deve ter cerca de 1,70m de altura, ele também tem a pele clara e seus cabelos são castanhos e seu corpo está só um pouco acima do magro, não parece ser muito forte, mas não é o seu físico quase atlético que chama a atenção, nem suas roupas de verão francês, são seus olhos. Chamas dançam dentro deles.

            — Saudações, meus Lordes eu venho em paz – diz o visitante.

            O Corvo Munin ouve a saudação, e tem certeza de que paz é algo que o estranho não carrega dentro de si.

            Siegfried olha para o pequeno homem à sua frente, e não sente nele o cheiro adocicado do Monte Olimpo[1].

            Munin estava certo, alguém veio na madrugada escura.

            Um estranho. Só que ele não vem das terras dos Aqueus. Não. O estranho cheira a outras coisas; cheira a deserto… e cordeiros.

            Com uma mesura, ambos convidam o homem a entrar.

            O estranho visitante entra na casa no alto da colina, e com ele chegam dúvidas sobre os eventos ocorridos em outro lugar, em outro tempo, envolvendo outros poderes que não os da terra de trevas e gelo; poderes que são ainda mais antigos, e grandiosos. O estranho traz dentro de si impensadas suspeitas sobre aquilo que se passou no Getsêmani, o Jardim das Oliveiras; suspeitas que, se confirmadas, podem abalar o mundo; desconfianças que trazem promessas de guerra.

            E Morte.

            O homem com chamas nos olhos finalmente encontrou o Guerreiro e o Corvo. Com a ajuda deles a verdade oculta será, enfim, revelada.

            Custe o que custar.

 

 

            “… e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

 

João, capítulo 8, versículo 22.

 

 

 

NOTA DO AUTOR: O conto que acabaram de ler, dividido em  sete partes, é um prelúdio para a trama que se desenrola no livro Getsêmani, A Verdade Oculta, de minha autoria. Se quiserem saber mais, leiam o livro.

Espero que tenham gostado do conto e apreciem Getsêmani.

Boas leituras!

                                                                          James Andrade.

 


[1] Monte Olimpo, na mitologia greco-romana, é a morada dos deuses e se localiza na antiga região da Tessália, na Grécia.

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~ por jmodesto1 em 24 julho, 2009.

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