A VITRINE DA LOJA, de Leonardo Brum

 vitrines

     Uma das coisas que mais aborreciam aquela mulher de trinta e dois anos era ter que ir ao centro da cidade. Fernanda não suportava atravessar as ruas tão movimentadas segurando sacolas e mais sacolas das compras que fazia todo sábado, e era difícil andar normalmente, pois talvez para fazer logo o que tinha que fazer parecia que tinha mais pressa dos que as outras pessoas no meio da multidão. Era uma mulher prática e não tolerava contratempos e inconveniências.

     Sua impaciência levava-a a se contorcer em ultrapassagens perigosas e em curvas sinuosas nas calçadas e cruzamentos. Era como um veículo em missão de urgência, uma máquina perfeita controlada pela racionalidade das leis da física. E era tudo em nome da liberdade de ir e vir — talvez naquele instante contasse mais a liberdade de ir do que a de vir, pois o vir era tão terrível, e precisava urgentemente da liberdade de chegar logo em casa. O calor do dia se tornava intenso e ela já estava quente por dentro. Sentia o próprio sangue ferver como um líquido inflamável. “Você tem um gênio muito difícil”, sua mãe já lhe dissera algumas vezes. Mas como permanecer calma num trânsito intenso de pessoas como aquele? Pensou na necessidade de ficar calma. “Mas para quê?”, perguntou-se, sem conseguir chegar a uma resposta. Pensar em se acalmar só fazia aumentar sua impaciência.

     Parecia que todo ponto de ônibus ainda estava longe demais, e as sacolas de plástico cheias de compras agora não incomodavam tanto quanto o peso que sentia nas costas. Uma pontada de dor que ameaçava aumentar, provavelmente culpando-a pela sua pressa. Mas a pressa sim, era necessária. Queria tanto chegar logo em casa, guardar as compras e descansar no sofá confortável da sala assistindo à novela das seis.

     Um carro quase a atropelou quando suas pernas insôfregas avançavam o sinal vermelho para pedestres. Como se estivesse numa corrida de fórmula um e pudesse competir de igual para igual com os outros carros. Já na calçada do outro lado da rua, vitoriosa, sorriu por dentro — era impossível expressar o sorriso em seus lábios, já que não tinha tempo pra isso e também o pensamento de sorrir era mais rápido. Entretanto, ao continuar o percurso à sua frente não se deu conta dos lados, e, mais uma vez andando a passos largos, acabou trombando na calçada com um rapaz que carregava jornais para entrega.

    Com o choque, os jornais caíram todos no chão, junto às sacolas que ela levava. Em meio ao susto, Fernanda viu o que para ela era uma ironia do destino. Os jornais molhavam nas poças d´água e voavam ao vento, e as sacolas se abriram, espalhando suas compras por todos os lados. Latas de molho de tomate e de atum rolavam pelo chão, e uma delas foi mesmo atirada ao longe pelo chute de um pedestre, que pareceu não ver o que acontecia. Ou talvez fizera de propósito mesmo. O presunto saíra do papel e as garrafas de vidro se quebraram, entornando o suco de acerola que ela há bastante tempo queria experimentar, mas que agora tinha gosto de rua e fazia-a sentir um gosto amargo em sua boca escancarada por causa do espanto.

     Ao ver aquilo tudo, uma grande raiva apoderou-se dela e já ia xingar o rapaz pelo que tinha acontecido quando se conteve por perceber que a culpa fora dela mesma. A culpa era de sua pressa. Fechou o rosto assim mesmo. Não era dada a escusas.

     — Meus jornais, olha o que você fez… — disse ele, desapontado, pedindo uma explicação de sua parte.

    Deu-lhe então um dinheiro e disse-lhe que estava muito descuidada e com muita pressa. O rapaz ainda olhou um tanto decepcionado para ela.    

    Fernanda recolheu aquilo que poderia ser salvo do desastre das compras e colocou de volta nas sacolas, enquanto o rapaz corria pela calçada atrás dos jornais que poderiam ainda ser aproveitados. “Que dia”, Fernanda pensou, “Tudo é tão difícil, não devia ter saído de casa hoje”.

     Acerola nunca mais. Desistira de vez de experimentar. “Devia ser horrível mesmo”, pensou, procurando talvez uma compensação. “A vida já é ácida demais”.  Precisava chegar logo em casa.

      Seguiu em direção ao ponto de ônibus, segurando ainda nas nãos as sacolas das compras que sobraram. Dava passos maiores que as pernas carregando sua ânsia implacável. Decidia que a pressa era inevitável, e a partir de então a pressa era somente sua, pois já tinha pago um preço por ela naquele dia infeliz.

      Mas então parou. Como se despertada por uma obrigação súbita. Notou o que estranhamente acontecia na vitrine da loja de roupas logo à sua frente. Colocou uma das sacolas no chão e, com as costas da mão, esfregou os olhos, intrigada.

      Aqueles manequins a observavam, e pareciam ter deixado seu mundo particular por sua causa. Todos os três, vestidos com as roupas que a loja vendia, olhavam pra ela com pavor, como se acometidos de grande espanto por causa de sua presença. Olhos profundos que a investigavam como se ela fosse a única pessoa que havia na multidão.

     Tentou entender direito o que estava acontecendo, e vendo que aqueles olhares indiscretos não desviavam a atenção sobre ela, Fernanda procurou despistar, olhou para um lado, depois para o outro, e viu que ninguém notava qualquer anormalidade por ali. Pessoas passavam e olhavam a mesma vitrine ameaçadora como se nada de ameaçador estivesse acontecendo, comentando ainda entre si como era bonito aquele vestido naquele lado da vitrine ou como estava barato, ou como estava cara aquela roupa na exposição.

     Entretanto ali estavam aqueles olhares vivos de pavor que continuavam a perscrutá-la, e pareciam estar indignados.

    “Mas por quê?”, ela se perguntava. “O que há de errado comigo?”. E olhou para si própria, tentando encontrar alguma falha ou sujeira no vestido vermelho que ela estava usando, talvez a meia desfiara ou o salto tinha se quebrado.

    Então se lembrou que naquela manhã havia feito um remendo no vestido. Não tinha ficado muito bom e então devia ser isso, ela pensou. Porém percebeu que eles não estavam olhando especificamente para o seu vestido com a alça mal costurada.

     Olhavam nos olhos dela. Fernanda sentiu que sua maquiagem havia se desmanchado. Mas como poderia saber disso se não havia nenhum espelho à sua volta?

    Mas era porque conseguia ver a sua imagem disforme no vidro da vitrine. Seu rosto refletido estava esquálido e sem expressão. Mas e o pavor que sentia? Viu novamente aqueles olhares inquietos que a invadiam e encaravam-na de frente, sérios e tomados de pavor. Como se ela estivesse expelindo sangue pela boca. Não apenas um filete, era como se o sangue estivesse jorrando por seus lábios.

    “Por que estão fazendo isso comigo?”, ela se perguntou, e um grito de medo quase escapulira de sua garganta mas logo se conteve, pois não queria aceitar o medo. Viu-se assaltada de si mesma e não tinha armas pra poder reagir.

      Pensou que aquilo tudo era como um vento frio que penetrava em seu corpo e só de pensar nisso já começava a tremer — Medo ou frio? Talvez fosse tudo isso, mas naquele instante não sabia direito.

     Aqueles olhares repreendiam-na e repudiavam-na sem palavras. Sentiu-se insegura e desconfortável sabendo que era vasculhada por dentro, e era como se naquele momento era ela o manequim e parecia vestir algo que ninguém compraria.

     Fernanda viu-se acometida da denúncia involuntária de si mesma. Se alguém estivesse a observar aquela situação poderia pensar o pior dela. Assistia na vitrine um drama que era seu. Um mal-estar em si.

     E como se já não bastassem as expressões de pavor, os manequins da loja subitamente começaram a gritar para ela, e Fernanda, atordoada pelo susto — podia ouvi-los a gritar — quase deixou suas sacolas caírem ao chão mais uma vez.

     Gesticulavam para ela. Movimentavam os braços, apertavam a cabeça com as mãos e escancaravam bocas e olhos aterrorizados. Olhavam para cima e agora gritavam palavras mudas de agonia.

     “Meu Deus”, pensou aflita, “o que foi que eu fiz…”

     Vítima de suas próprias atitudes, agora se sentia culpada.

    Lembrou-se que há muito tempo sua mãe lhe dissera, quando faziam compras juntas, que os manequins das vitrines de lojas entendiam os sentimentos e desejos das pessoas. Tinham experiência e estavam acostumados a isso. E Fernanda, em meio ao medo comprovado, chegou à conclusão de que eles tinham razão.

     E um grande arrependimento tomava conta dela por não ter se dado conta antes de algo que poderia ter evitado. Então saiu correndo dali, deixando os manequins que ainda gesticulavam na vitrine. Naquele instante mais do que nunca precisava chegar em casa.

     Depois de vinte minutos esperando no ponto — o que fez aumentar sua aflição – o ônibus finalmente chegou. Estava muito cheio mas não quis esperar por outro. No caminho, em pé com as sacolas de compras, viu pela janela do ônibus que todas as ruas vinham e passavam, e só a dela não chegava nunca.

     Até que então finalmente estava na porta de sua casa. Experimentou o trinco e a porta abriu-se. O marido devia estar em casa, sentiu-se aliviada por saber disso. Ao entrar viu que lá estava ele, sentado no sofá em frente à TV. Ele parecia ter chorado muito e a sua mágoa naquele momento parecia ter eliminado a alegria costumeira de seu jeito de ser.

     Fernanda olhou-o nos olhos e sentiu-se horrível vendo a tristeza dele. Estava triste consigo mesma. Ainda com as sacolas nas mãos, pois então nem mais se lembrava delas, aproximou-se dele dizendo:

     — Por favor, David, me desculpe.

     E a sua voz soou como uma súplica.

     — Perdoe-me, eu não queria ter feito aquilo.

     Ele virou-se para Fernanda com o semblante sério. Ela estava apreensiva e demonstrava sinceridade. Revelava-se a ele e também, afinal, a si própria.

     Foi quando ele então sorriu pra ela.

Leonardo_Brum_07SOBRE O AUTOR – Leonardo Brum é mineiro de Belo Horizonte, autor do livro Um Mundo Perfeito, publicado pela Novo Século em novembro de 2008. Mora há cinco anos no RJ. Seu estilo é marcado pelo suspense impactante onde o real e o imaginário se confundem, tendo o lugar-comum como o palco essencial da fantasia e do sobrenatural.

Site do autor: www.leonardobrum.com.br

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~ por jmodesto1 em 14 agosto, 2009.

22 Respostas to “A VITRINE DA LOJA, de Leonardo Brum”

  1. Parabéns ao autor! Um conto diferente, subjetivo e muito inusitado. Está muito bem escrito e com muita criatividade. Li o primeiro livro, “Um Mundo Perfeito”, e espero encontrar cada vez mais novas pérolas deste autor. ^^ Parabéns ao site ^^

  2. Excelente conto! Subjetivo, revelador, filosófico e escrito com a mesma competência inerente a tudo que o Leonardo Brum escreve. Parabéns, Leonardo, meu irmão de escrita!

    • Obrigado, Márson, fico até lisonjeado! “A Vitrine da Loja” eu escrevi há mais de uma década, cheguei a ganhar uma Menção Honrosa, na época, num concurso que participei com ele. Mas até hoje gosto muito do conto. Obrigado pelo comentário!

  3. Interessante a ideia de os manequins entenderem os sentimentos, terem essa sensibilidade. Parabéns pelo ótimo conto! ^.^

    • Pois é Celly, adoro reinventar a rotina, mudar a aparência óbvia que muitas vezes a realidade nos supõe. Instigar uma escolha diante de uma situação incomum. Fico feliz que você tenha gostado do conto.

  4. Parabéns, Leonardo Brum, pelo excelente conto. Envolvente, criativo e de leitura agradável.
    Abraços
    JB

  5. Muito bacana a idéia, vinculada aos pensamentos que nos afligem no dia a dia, o que nos torna culpados de uma ou outra coisa.
    Excelente autor, sempre criativo. Li o seu livro: UM MUNDO PERFEITO, é muito bacana e inusitado.
    Este site é muito bacana, parabéns pela equipe.

    • O sentimento de culpa sempre foi um tema muito apropriado para a linha de suspense. Procurei aqui explorá-lo de dentro para fora, imaginando a bomba de efeito emocional disparada pela dor repentina de uma consciência abalada. Tenho visto que você está sempre acompanhando o que escrevo na internet, obrigado amigo! Um abraço para a turma de Belo Horizonte!

  6. Muito bem costurada a história.Sem contar na criatividade.Gostei e recomendei a todos os meus amigos.Parabéns!!!Quero ler mais contos.Um abração e força sempre!!!Jeferson.

    • Valeu pelo comentário e pela divulgação, Jeferson! Vamos incentivar as pessoas a conhecerem cada vez mais os livros de autores nacionais de Literatura Fantástica! Existem ótimos autores por aqui, bem como ótimas iniciativas como o site Fontes de Ficção. Parabéns ao Nelson Magrini, J. Modesto e James Andrade pela idealização desta ferramenta muito útil de divulgação!

  7. Um bom conto, Leonardo. Parabéns! Convidativo aos que se deliciam com amplas cenas descritivas. Particularmente, adorei a ideia dos manequins entenderem o que as pessoas sentem. Ótima sacada! É muito reconfortante saber que você, apesar de não ser carioca da gema, representa tão bem o Rio de Janeiro neste seleto hall dos novos autores de talento.
    Abraços.

    • Legal que você gostou, Higor. Este conto foi um desafio para mim, algo pouco diferente das coisas que tenho escrito. A temática é primordialmente subjetiva, voltada para o interior da personagem: sua personalidade, sua pressa, sua consciência abalada. A culpa acometida de forma inusitada e inesperada, no meio da rotina do cotidiano. Por isso a necessidade do recurso da descrição. Obrigado pel comentário!

  8. O conto ficou fantástico! Adorei mesmo! Quanta criatividade! Já era de esperar que a história deste conto iria ficar muito legal, pois já tinha lido seu livro Um Mundo Perfeito e já imaginava que o conto ficaria no mesmo nível. Por falar nisso para quando sai o próximo livro? continue sempre escrevendo contos interessantes, continue acreditando no seu rico potencial como escritor.
    abraços e sucesso sempre!

    • Sinto-me honrado por perceber que as pessoas têm elogiado tanto Um Mundo Perfeito. Para quem ainda não tevfe a oportundiade de conhecê-lo, o livro está disponível nas livrarias em todo o país. Em 2010, planejo lançar o meu segundo livro, uma história de vampiros com uma abordagem aboslutamente diferente de tudo o que já se viu sobre o tema. O livro está em fase de finalização. Haverá também o lançamento de O VALE, escrito em parceria com outros três escritores: Gerson J. V. Couto, J. P. Balbino e Higor Porto Montes. Trata-se de uma história de suspense e terror ambientada numa cidade no meio do nada onde fenômenos estranhos acontecem. O resultado ficou muito bom, e deverá ser lançado ainda no primeiro semestre de 2010. Obrigado pelo comentário!

  9. Leo, vc é um escritor ímpar, brother!

    Adorei o conto, muito bom mesmo.

    Continue assim, sempre criando enredos que prendam a atenção da gente e nos surpreendam.

    Beijos, Nana.

    • Olá Nana, que legal você também aparecer por aqui. A construção de textos de ficção me cativou desde a adolescência. Acho muito interessante a idéia de lançar um mistério no ar, mas não revelá-lo de imediato. Gosto de ir adicionando detalhes, instigando a leitura capítulo após capítulo, aumentando o mistério da trama, até a grande descoberta final, de forma surpreendente. O segundo livro, que pretendo lançar no ano que vem, também traz essa característica. Obrigado pelo comentário!

  10. Leo, o conto é muito criativo e envolvente!!
    Parabéns pelo sucesso, que sua estrela continue sempre a brilhar!!!
    Bjus

  11. Obrigado a todas as pessoas que leram o conto! Gostaria de convidar a todos para conhecer o meu livro de mistério Um Mundo Perfeito, disponível nas livrarias em todo o país. Estaremos presentes na Bienal do Livro 2009, aqui no Rio de Janeiro, em espaço próprio. Uma ótima oportunidade para ter seu exemplar autografado e também para um bom pate-papo com o autor. Um grande abraço e obrigado pela oportunidade.

  12. Olá, Leonardo, blz? Sou o Lord Daniel Salem, do Miniconto “Antropófago”, que você gosto. Desejo a ti meus parabéns, li inteiro o conto!Você consegue prender o leitor! Parabéns!

  13. Obrigado, Lord! Fico feliz que tanta gente tenha gostado do conto. Já faz muito tempo que eu o tinha escrito, estava guardado há muito tempo. Felizmente agora os leitores puderam conhecê-lo. Peço-lhe que continue a acompanhar os meus tarbalhos, porque em 2.010 haverá o lançamento do meu segundo livro: Uma trama de vampiros contada sob uma perspectiva absolutamente original, diferente de tudo o que já se leu ou viu sobre o tema. Mas permanece o suspense de impacto, característico de minhas histórias. Um grande abraço!

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