A PROLE DE ULPIA, de Albarus Andreos

prole ulpia     Risadas ecoavam sob o cobertor anelado de fumaça de ópio. As lâmpadas de azeite borbotavam a atmosfera amarelada e disfarçada de sombras com seu odor doce por entre trapos imundos que pendiam das laterais dos catres e canapés. No meio do salão, patrícios e escravos, homens e mulheres, entrelaçavam-se animados pela luxúria. Almofadas de seda e tecidos levantinos formavam camadas uns sobre os outros. O som das cítaras embriagava os ouvidos num repetido conjunto de acordes multicoloridos. Havia ainda o aroma da comida assada, os odores de suor e vinho misturados. Braços e pernas nuas movendo-se, iniciando entrelaçamentos íntimos. Aqui e ali, nos reservados, viam-se quadris agitados e os sussurros já se transformavam em expirações fortes e gemidos elevando-se em gritos satisfeitos dentre risos e gargalhadas temperadas a álcool. Os fedores do vômito e da urina das retretes de um cômodo contíguo vinham como tentáculos sinuosos levitando até narinas mais sensíveis

     Num dos reservados, divididos do resto do ambiente por cortinas efêmeras de gaze egípcia, um par de olhos observava a tudo com deleite. Estava acompanhado por duas jovens escravas galesas que lhe massageavam o corpo com óleo e lhe davam o cachimbo de haxixe persa à boca. Um escravo lhe trouxe então uma vasilha que depositou sobre a mesa. Sua expressão era de apreensão.

     — Conforme seu pedido, dominus.

     — Saia. — Ordenou a voz do amo.

     — Tem certeza que não quer que os leve direto para a cozinha, eles são perigosos.

     — Não vou comê-los, idiota. Agora saia.

     — Si… Sim, dominus.

     O escravo se retirou, com os olhos baixos.

     —O que é isso? — Quis saber uma das prostitutas, a mais jovem, de cabelos vermelhos, olhando melhor agora o jarro de vidro transparente em cujo interior se via um par de conchas alongadas de coloração ocre cobertas de manchas claras.

     —São cones. — disse-lhe o jovem senhor a quem prestava serviços àquela noite. — Em seu interior possuem um molusco especial, vindo das águas do Mar da Ásia.

     —Posso pegá-los? — ela riu.

     —Os olhos do homem se estreitaram. Ele sorriu também. — Sim! Pegue-os, como queira.

     A moça riu com seus olhos pesados e submissos. Seu rosto estava relaxado numa mente repleta de borboletas que se dissolviam sobre pedras preciosas rebrilhantes. Ela então começou a enfiar a mão na água. O molusco expeliu de uma cavidade uma longa prosbócide tubular que aguardava a aproximação da mão.

     A outra escrava, já quase nua dentre poucas vestes parecia ressonar, a cabeça oscilando devagar de um lado para o outro. Seu belo rosto de ninfa tinha um lânguido sorriso e era emoldurado de cabelos negros desgrenhados. Os olhos esmeralda entreabriram-se então para tentar ver os tais bichos dentro da água salgada.

     —Deixe-as ir, Glauco.

     Os dentes do jovem amo se arreganhassem num esgar selvagem que, por um instante, assustou mesmo as escravas de mentes embriagadas.

     —Ave, Décio Trianus, filho de meu pai! — A expressão do jovem suavizou-se ao perceber o cheiro familiar do homem diante dele. Tinha o rosto coberto pela sombra de um capuz largo de uma capa de viagem presa aos ombros.

     —Você me assustou, mas chegou em boa hora. Sente-se irmão. Tire a capa. Dividirei minhas mulheres contigo, como nos velhos tempos! E, veja o que tenho para esta noite: cones! Custaram-me…

     — Guarde sua droga para outro momento, irmão. Os homens de Radamanto estão vindo atrás de ti.

     O lábio inferior de Glauco tremeu.

     — Ora, irmão, deixe estes assuntos comezinhos para depois. Veja! Uma ferroada destes moluscos e viajaremos nas asas de pégaso… As ervas dos humanos não podem mais me libertar o espírito, preciso de drogas cada vez mais fortes, pois estamos cada dia mais fortes! Consegue sentir? Serpentes e escorpiões já não surtem os efeitos de antes.

     —Este lixo que usa não me apetece, você sabe. A picada teria matado a escrava. Ela estaria se contorcendo feito uma barata de cabeça esmagada, neste momento.

     —Por que tanta importância à cabeça de uma barata, irmão? É que tive a idéia de beber o sangue dela depois do veneno estar fluindo por suas veias, ao invés de tomar eu próprio a aguilhoada do bicho.

     As moças foram então dispensadas com um gesto para se servirem de outros homens à sua vontade, dentre o tumulto ritmado do meio da sala.

     —Não quer mesmo se sentar? Você está preocupado, Décio. Qual o problema?

     — Você se alimentou no território de nosso anfitrião. E estava prestes a fazê-lo ainda mais uma vez? Você é um idiota, Glauco!

     —Não seja tão rigoroso comigo, irmão. Estava enjoado de coelhos e cães… Apenas seguia meus… instintos.

     Os olhos de Décio estreitaram-se e um ruído de animal ecoou cheio de fúria em sua garganta, mas conteve sua ira olhando ainda os olhos de seu irmão sob as sombras do capuz que lhe cobria a cabeça. — Ulpia foi bem claro conosco quando saímos de Sérdica, Glauco! Não devemos caçar em território alheio, você sabe! Foi o que ele instituiu dentre os ulperates há dez anos. Cada colegiado preserva seu lugar, conforme a lei, e César nos deixa livres para viver ao nosso modo. Desrespeite a norma e teremos uma guerra aberta entre os colegiados se as próprias legiões de Roma não vierem atrás de nós.

     —Você teme a ira de Trajano? Esse… estrangeiro que…

     —Trajano nasceu em Hispania, que é parte do império romano… Eles vão arrancar sua cabeça, seu imbecil!

     — Trajano não é um imperador romano. É o que quero dizer. E eu não sou humano e desprezo as unções dos humanos por outros humanos, seja em nome de Juno ou de Hades! Deixe-os virem, irmão!

     Décio rosnou e levantou a mão, cheio de ódio. Seus dentes rebrilharam sob o capuz, arreganhados em selvagem demonstração de poder.  Um golpe seu faria seu irmão atravessar a parede até o outro lado do prédio, mas estava em local público e o pai havia proibido os ulperates de se fazerem notar tão explicitamente. Devia se concentrar no assunto que o trouxera ali.

     —Agora Radamanto é nosso inimigo, Glauco. Ele irá matá-lo. Até hoje fiz tudo que podia por você, mas chega!

     —Do que está falando irmão? Ele não nos oferece ameaça. Já nos…

     —Você estará sozinho desta vez. Estou de partida.

     Glauco levantou-se olhando para os lados, com um tremor no estômago. —E vai para onde?

     —Para a Dácia. Há uma guerra a ser vencida por lá.

     Glauco observou seu irmão partir. Ele ajudaria o império, mas deixaria o irmão resolver os próprios problemas. Que fosse embora! Décio era um homem de guerra, filho de Marte, nascido para caçar homens que pudessem se defender com uma espada e não servas indefesas inebriadas pelo haxixe. Glauco recolheu-se então em sua dor e chorou enquanto mergulhava a mão dentro do vaso de vidro e suas dores psíquicas eram substituídas pelo entorpecimento mental das aguilhoadas dos perigosos moluscos, matadores de homens. Seu veneno o deixaria entorpecido e poderia descansar um pouco de sua torpe existência.

****

     Faltava pouco para o amanhecer. Nunca compreendera por que a luz do dia lhe fazia tanto mal. Ainda era suportável, embora conjecturasse que chegaria um dia em que ela queimaria até às cinzas. Ela se tornava mais e mais causticante quanto mais aumentava seu poder, quanto mais vítimas obtinha, quanto mais discípulos sua nova raça fazia e mais ampla se tornava a nova casta criada por Ulpia, pai de Marco Ulpio NervaTrajano, imperador de Roma. Por conseguinte os ulperates eram, no mínimo, iguais a Trajano, que seu irmão seguia como a um servo. Glauco cuspiu de lado.

     Cruzou o mosaico em frente o anfiteatro construído por Nero. Trançava ainda as pernas como os homens que bebem demais, efeitos ainda da droga dos moluscos. Estava faminto. O sangue era a única bebida que o alimentava e desfrutar seu prazer era cada vez mais divino.

     —Glaucus Trianus?

     Glauco se virou. Diante dele havia um vagabundo vestido com uma capa rota. No pescoço trazia um cordão com o pingente de um peixe.

     —Você é um dos seguidores do crucificado? — a voz mal se articulava na boca do vampiro, como o bêbado que se apresentava. Seus olhos embaçados e a mente oscilando como uma galé no mar Tirreno. — Adoro sangue de cristãos!

     Os dentes de Glauco se arreganharam para o bote, mas uma pancada fortíssima veio-lhe pelas costas. “O vagabundo não deveria estar sozinho” pensou, antes de desfalecer.

****

     Acordou sem conseguir saber quanto tempo havia dormido. Diante dele havia uma miríade de homens vestidos como bons e ricos patrícios. Ao lado, três ou quatro fortes escravos cobertos de suor e sangue. Radamanto, o trácio, era o que estava diante dele. Segurava uma faca afiada.

     —Aqui finalmente encontro-me, eu ante Radamanto, tal qual Enéias quando de sua viagem com a Sibila pelos caminhos do inferno — balbuciou o vampiro, com a voz pastosa. Seu rosto estava coberto por hematomas, as costelas quebradas assim como os dedos de suas mãos. Não se lembrava de quando isso havia ocorrido, mas sentiu a dor deste suplício de imediato, ao abrir os olhos. Isso, lhe dava um prazer incerto, por lembrá-lo ainda vivo, tal qual as aguilhoadas venenosas dos cones do mar haviam feito na noite anterior. E de imediato as feridas começaram a se cicatrizar e os ossos a se juntar, como acontecia inexplicavelmente aos que eram como ele, seres da nova raça. As dores das cicatrizações eram intensas mas, a cada uma, o alívio recompensava de imediato. Sentia prazer então. Ouviu rosnados familiares vindos daqui e dali.

     —Sim, o inferno. É onde está exatamente neste momento. — disse-lhe o oponente.

     Glauco tentou livrar as mãos, mas nem com sua prodigiosa força conseguiu. Grilhões de aço prendiam seus braços numa coluna de enorme espessura sob o teto do templo de Minerva.

     —Você desrespeitou minha autoridade em minha cidade. Você morrerá por isso. Que a deusa da sabedoria dê a ti o conhecimento de teus crimes, Glauco Trianus, e que Cérbero estraçalhe tua alma maldita.

     Glauco pensou em chorar novamente… Não soube discernir o que lhe acometia. A dor e o som da faca indo e vindo em sua carne, machucando e lacerando os músculos do pescoço, os tendões se rompendo, a espinha sendo separada pela lâmina. Quase sem sangue derramado. Um quê de caldo negro e denso, apenas.

     —Quando terminar, incinere a cabeça, para que nunca mais viva,

     A dor e o prazer se prolongaram por intermináveis instantes, até que a luz se apagou.

     Para sempre.    
 Foto Albarus
 Sobre o Autor –  Albarus Andreos é Bacharel em Ciências, formado pela UNIMAR. Engenheiro mecânico pela UNESP, pós-graduado em Língua Portuguesa Voltada Para a Formação de Leitores nos Diferentes Lugares da Leitura pela UNIMEP. Autor do conto A MENINA ELFA da antologia ANNO DOMINI, MANUSCRITOS MEDIEVAIS pela Editora Andross (São Paulo, 2008). Um dos cinco premiados no concurso Moby Dick da Editora Cosac Naif em 2008; vencedor do IV Concurso de Contos da UNIMEP, 2008, tendo outros dois contos classificados em quarto e quinto lugares. Autor de A FOME DE ÍBUS – LIVRO DO DENTES-DE-SABRE, 2009, pela Giz Editorial.

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~ por jmodesto1 em 24 outubro, 2009.

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