LEITOR DO MÊS – JANEIRO/2009

devil-copia

                                                                     1350 a.C., dia das trevas.

 

            Faltava pouco para a batalha começar: os demônios marchavam incessantemente em rumo a colina de Zahur. Meu povo humilde e desprovido de armas, apenas aguardava a chegada daqueles que lhes tirariam a vida e, próximo do nosso altar aos deuses Sol e Lua, em cima de uma pedra no alto da colina, eu os observava: de um lado, meu povo; velhos, crianças, jovens e casais. Do outro, marchando com firmeza, a tropa dos demônios em seus robustos e fantasmagóricos cavalos. O farfalhar metálico das armaduras e armas e o tropeio dos cavalos eram irritantes, mas o brilho das espadas refletidas sobre a irmã Lua, riscavam a noite como grandes pirilampos, fazendo-me lembrar dos tempos de criança, quando corríamos à noite nas colinas de Zarcar em busca destes insetos que brilham. Sim, o tempo passou como um relâmpago. Naquele fatídico dia eu era um homem de três décadas, casado com uma mulher muito especial e pai de sete maravilhosos filhos. A morte caminhava lentamente, e nada poderia impedi-la e muito menos cessar o inevitável, a não ser algo estranho e inesperado que surgia de minhas entranhas; amargo, odioso, perverso e quente. Eu sentia meu sangue ferver nas veias como uma grande torrente, e com os punhos fortemente fechados, aguardei na entrada da vila a chegada da morte, enquanto que meus contemporâneos apenas observavam minha estranha fisionomia, semelhante daqueles que caminhavam para nos destruir… Alguns jovens pareciam ter sido contaminados com a minha febre, e ficaram atrás de mim, de punhos fechados e dentes cerrados. O som da morte ficava cada vez mais próximo. Podíamos sentir o chão vibrando no mesmo ritmo das batidas dos nossos corações. Eu permaneci intacto, diferente das minhas veias que freneticamente tentavam saltar do corpo. O chão estremecia cada vez mais. Quantos demônios marchavam em nossa direção? Dois mil? Três mil contra apenas duzentos humildes camponeses desarmados? O que fizemos para os deuses para termos tamanho castigo? O que os meus punhos poderiam fazer contra centenas de demônios poderosos e armados?… O som do inferno estava tão próximo, que não podia mais ouvir as lamentações dos velhos nem o choro das crianças e, logo, avistei os primeiros seres da morte vindo em nossa direção; truculentos, altos e selvagens. Por um momento que durou uma eternidade, o tempo parou. Eles pararam de marchar. O chão não mais estremecia, mas ainda podia ouvir ao longe o soluço das nossas crianças, e as batidas do meu coração se intensificaram de tal maneira, que poderia senti-las em minha face.  Um deles, carregando uma bandeira negra com um símbolo de um deus profano, caminhou em nossa direção, parou e vociferou versos infernais. Quando lhe faltou palavras, numa cena dantesca, com os olhos vermelhos, arregalados e lacrimejantes, olhou para nós e iniciou um tétrico gargalhar, como se estivesse possuído por uma estranha entidade, pois o som que emitiu foi tão agudo, que estremeceu minh’alma. Ele ergueu ainda mais o braço, para que, sem exceções, todos visualizassem a tétrica estampa da sua bandeira, quando que de trás dele, centenas de amaldiçoadas flechas com pontas de fogo foram arremessadas, atingindo grande parte da população, queimando nossas casas e nossas vidas. Eles  gritavam e gargalhavam, algo que só os demônios deveriam fazer nas cenas da morte. Em questão de pouquíssimo tempo, ninguém mais estava atrás de mim; todos mortos, decapitados e desfigurados. Saltei por cima do primeiro demônio, e com uma força hercúlea, o estrangulei, chamando atenção de outros dois que vieram rapidamente em minha direção. Peguei a espada do que matei e quase cego de ódio, desferi golpes ágeis e certeiros, deixando mais dois corpos ensangüentados no chão. Eles não eram demônios como eu imaginara, pois possuíam nossas mesmas feições, sangravam e tombavam como nós…. Formei um círculo de corpos em volta de mim, como uma pequena muralha de carne e ossos. Minhas roupas estavam tingidas de sangue. Meu paladar sentia o gosto amargo do respingo do sangue deles. Meus pés, mergulhados em poças de sangue, tornaram-se escorregadios.  Naquela noite, perdi a conta de quantos mandei para suas moradias, provavelmente nos confins do inferno, mas, chegou um momento em que meus olhos não agüentaram a ardência do fétido e maldito sangue dos adversários. O peso da espada tornou-se insuportável; não conseguia mais erguê-la. Minhas pernas estremeciam e fraquejavam cada vez mais, mas, foi somente quando vi minha amada esposa e filhos mortos, que perdi a guerra. Pois nada mais fazia sentido para mim… Fui espancado, acorrentado e humilhado, enquanto ouvia a zombaria dos inúmeros covardes soldados.

Fui o único sobrevivente do meu povo e, após saquearem nossos poucos bens, fui levado pelos demônios e caminhei por vários dias, sem comer ou beber. Perdia as forças constantemente. Desmaiava e acordava, devido a intensa dor de ser esfolado, quando o  cavalo me arrastava no arenoso e trepido terreno. Eles se divertiam e gargalhavam com a minha lastimosa e degradante situação.

 

(…)

 

Após dias de tortura, chegamos ao escuro vilarejo dos maltrapilhos demônios; um lugar terrível, onde a carniça era visivelmente espalhada a esmo. Todos os malditos vieram receber os guerreiros com euforia. Fui levado como um grande troféu até o centro do local; um campo aberto onde poderia acomodar todos eles. Enquanto era preparado para ser enforcado, algumas crianças cuspiam e atiravam pedras em mim e, após todos os espasmos de euforia, inevitavelmente, fui enforcado… Mas adianto-lhes que para o céu não fui convidado e do inferno facilmente escapei.

 

(…)

 

É com grande pesar que vos escrevo e relato que foi naqueles dias que aprendi o que era a maldade. Meu coração petrificou-se por completo. Meus olhos perderam o brilho. Minha voz ganhou uma tonalidade intensa de rouquidão, enquanto que minha feição tornou-se sombria e, o amor? É apenas uma palavra encontrada nos contos de fadas… Hoje sou um espírito errante, caminho incessantemente em busca de algo… Sim, algo que me faça entender o porquê dos deuses terem criado esse terrível sentimento intitulado Perversidade.

Essa é minha história, este sou eu; perverso, odioso, poderoso e eterno. Posso ser chamado por vários nomes: Diabolus, Belzebú, Baphomet, Lúcifer, Barrabás, Satanás ou mesmo Anjo Caído, tanto faz…  Caminho através dos séculos em busca de vingança, mas, se um dia cruzar contigo, reze para os seus deuses que eu enxergue apenas a bondade em seus olhos, pois o fio da minha espada é cruel, vingativo e certeiro…

FIM

 

SOBRE O AUTOR ADEMIR PASCALE – Lingüista, crítico  de  cinema,   ati-vista cultura, escritor, professor de informática (LINUX), idealizador do projeto de inclusão social VÁ AO CINEMA e do zine TerrorZineMinicontos de Terror e editor do portal Cranik (www.cranik.com), é também autor do áudio-livro Cinema – Despertando seu olhar crítico (Editora Alyá). Já publicou seus contos em diversas antologias, organizou a coletânea Nos labirintos da Escuridão, está com o romance O Desejo de Lilith Revelações em um diário no prelo e organiza a coletânea de novelas para a obra Invasão – Fic Science Edition da Giz Editorial.

 

Contato com o autor:

ademir@cranik.com

 

 

 

 

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30 Respostas to “LEITOR DO MÊS – JANEIRO/2009”

  1. Excelente, Ademir.

    Mais um belo texto que o seu talento inegável produz. Parabéns!
    Estou já degustando o prazer de ler o seu romance, não esqueça de me avisar quando for lançado.

    Sucesso, você faz por merecer.

  2. Impresionante, conmovedor y revelador. Me ha gustado mucho.

  3. Intenso, dramático e inspirador. Em “Alegoria da Maldade” podemos observar como nosso amigo escritor Ademir Pascale tem afiadas as penas do escribato. Aqui uma intertextualidade rica e interdisciplinaridades ímpar. Vincula o profano e o sagrado, remete-nos às questões metafísicas, une literatura e religião (teologia), história e ficção, mas engana-se quem pensa estar mergulhando na simples reflexões das coisas, o texto é pura diegese, ação e conheceremos o protagonista justamente por elas. Faz menção a textos sagrados que nos remetem ao pensar o sentido da maldade e da exclusão. A atmosfera é mantida coerentemente e o desfecho é algo inusitado, surpreendente. Leiam e confiram. Esse escritor promete.
    Parabéns!

  4. Ademir: vi-me transportada para um tempo terrível com a força de suas palavras. Parabéns pelo conto, aguardo livro inspirador , abraço, Vanda Luiza de Souza Netto.

  5. Que maravilha!
    Em primeiro lugar parabenizo a iniciativa de criar este site, “Fontes da Ficção”, pois abriram uma porta que, sem dúvida, proporciona aos leitores o acesso a trabalhos maravilhosos como os de Ademir Pascale, já reconhecido, e revelará inúmeras mentes brilhantes que estão, neste imenso país, sob a escuridão do sistema “The Wall” – dominado pela elite sócio-cultural.
    Quanto ao conto “Alegoria da Maldade” não me surpreendo, já conheço o potencial criativo e pleno de inspiração do autor. Entretanto, afirmo, Ademir Pascale conseguiu me surpreender e me estimular um mágico desejo de aguardar com relativa ansiedade para ler sua obra, em andamento, que inspirou este conto.
    A combinação de tudo o que comentei é um verdadeiro enlevo que me desperta aquele orgulho de ser brasileiro!
    Parabéns e muito obrigado a todos!

  6. Excelente. Um grande conto de um grande autor. Um conto que facilmente poderia tornar-se um romance. Merece ser lido e relido muitas vezes.

  7. Primeiramente, digo que sinto um grande prazer em ter meu humilde conto publicado no site dos grandes escritores e amigos J. Modesto, Nelson Magrini e James Andrade. A obra em que trabalhei constantemente em 2007 e 2008, foi “O Desejo de Lilith – Revelações em um diário”, algo semelhante com o que acabaram de ler, só que envolvendo o primeiro homem nascido do ventre de uma mulher, códigos secretos da Bíblia e uma conspiração contra toda a humanidade. O conto “Alegoria da Maldade” foi inspirado em outra obra, a que ultimamente trabalho. Vou ler todos os comentários…

    Um forte abraço e muito obrigado pelo apoio.
    .

  8. Conto digno do Fontes, Ademir! Parabéns!
    Estou curioso pelo seu livro. Abss!

  9. Uma visão interessante sobre demônios e com um final relevante.

  10. Parabéns Ademir! É de uma veia sobrenatural e fantástica no sentido da pura ficção!
    Meus abraços e sempre muito sucesso pra ti.

  11. Parabéns, Ademir Pascale! O seu conto está espetacular!!! Bom, é isso. Sou suspeita pra falar do seu talento. Beijos.

  12. Ademir.
    Teu conto me prendeu do inicio ao fim… realmente gostei muito.
    A curiosidade por uma continuidade é inevitável.
    Parabéns!

  13. Um emocionante e muito bem-escrito conto, Ademir. Parabéns e um feliz 2009!

  14. Muito bom Ademir. Gostei principalmente das descritivas sobre a batalha, e claro, do final surpreendente.

    Abraços horripilantes

    Ps.: O Estronho está às ordens para este ou outros contos de sua autoria.

  15. Sem dúvidas começou o ano com o pé direito, Ademir. Parabéns! Adorei o conto, muito bem escrito e com um final criativo. Certamente merece um futuro romance. Mais uma vez, parabéns!!! Vc merece!

  16. Uau! Fiquei impressionada com a “força” dessas palavras! Parabéns pela bela história… estou ansiosa para ler mais!

  17. Que “ler quando tiver tempo” que nada! Li a primeira linha, e não consegui parar mais, rsrs. Parabéns, cara. Palavras fortes e cortantes, como o fio da espada de seu personagem central. Abraços!

  18. Meu caro ademir, como sempre, em plena forma! A cena da batalha é tão realista que quase podemos sentir os respingos de sangue em nós (rs!)…
    Grd abraço!

  19. Eu conheci o Ademir quando publicamos juntos no Domini, pela Andross. Essa é só mais uma demonstração de seu enorme talento.

  20. Ademir,

    Meus mais sinceros parabéns pelo conto. A humanização, tanto física quanto emocional, daquele que foi o “mais amado dos seres” é algo ímpar, digno de um conto seu. Parabéns a vc e ao Fontes por abrir espaço para visões tão poucos comuns – e, por isso mesmo, mais que bem vindas – da literatura nacional.

    Grande abraço

  21. Olá Ademir! Aqui é Ana Florisa, acabei de ser publicada (de surpresa) na Terrorzine 5! Antes de mais nada, obrigada pela oportunidade. Gostei do seu conto, muito forte! E sua linguagem é bem poética (e de poesia eu gosto, rs). Meu filho que me ajuda a me situar na internet, ele falou que é muito bom publicar aqui, portanto, parabéns! Abraços.

  22. Realmente, a Literatura Ficcional Brasileira vivencia hoje o seu melhor momento, onde magníficos autores como o Ademir Pascale – mestres na arte das palavras e ótimos contadores de histórias – nos premiam com seus maravilhosos contos e fábulas, verdadeiros ícones da Ficção Nacional, como este que acabei de ler, cujos argumentos além de extremamente intrigantes e envolventes, auferem uma aura nostálgica à narrativa, ao conferirem à mesma, elementos da nossa própria História como raça humana. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a inusitada humanização de Lúcifer, uma verdadeira quebra dos paradigmas tradicionais em relação à maléfica entidade a que este ser sempre foi remetido, ao longo dos tempos. E o que dizer do final, então? Fantástico e imprevisível… Meus parabéns Ademir!

    Um forte abraço!

  23. Excelente conto Ademir. Mto bom mesmo!!!!!!

  24. Já estou ansiosa e curiosa para saber como será a obra.
    Geralmente não gosto muito de ação,e guerras,mas conseguiu prender a atenção,e foi bem escrito.
    Parabéns mais uma vez.

  25. Ademir, muito bom mesmo.
    Algumas frases de impacto, jogadas no momento certo, inspiram.
    Um texto de fácil leitura, agradável e com conteúdo interessante.

    Pena que a falta de parágrafos formatados atrapalhe um pouco a leitura. Mas de resto, está de parabéns!

  26. Gostei muito desse texto
    olha que meus demonios são outros rsrsrs
    Mas me pegou ao falar de Lucifer
    meu personagem preferido
    Parabens sua ideia ao descreve-lo e exatamente o que sinto a respeito dele.
    Desejo que continue sempre inspirado

  27. um conto forte e criativo com um final excepcional.
    Gostei de seu estilo, facilmente me vi dentro das cenas.
    Parabéns

  28. realmente, foi um conto bastente criativo, e ele teve forças até ver que não tinha mais razão para sua vida… ver a familia morta realmente é o fim de uma guerra.
    Parabéns!

  29. Ademir Pascale, e sem duvida, um talento brilhante, e muito inteso. com se estilo pessoal fantastico!
    Seu conto nos prende do comeco ao fim, dramatico, agradavel, e muito emocionante, ao ver a derrota na marte de sua amada familia.
    Realmente, esta e a grande derrota! Me transportei ao ler este texto.
    PARABENS! Voce e tudo de bom. Um forte abraco

  30. Muito bom, não vou repetir o que os demais falaram mas o texto tem os sinais característicos de Ademir Pascale. Grande Abraço.

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