OS GUARDIÕES DO TEMPO, de Nelson Magrini

•11 Julho, 2009 • Deixe um comentário

LEIA UM TRECHO DO PRIMEIRO CAPÍTULO DO NOVO LIVRO DE NELSON MAGRINI!

OS GUARDIOES2

SERÁ QUE O CÉU PODERIA ESPERAR, AO MENOS UM POUCO?

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     – Droga, droga, e… droga!

     – Nossa, Rogério, você só reclama. Tá parecendo a vó, de tanto resmungar! – disse Ciça.

     – Bom, prá você pode tá tudo da hora, Ciça, mas prá mim, não tá. Estamos aqui, em plena noite, sozinhos, neste barquinho a remo, bem no meio do lago. E isso sem contar o frio que está fazendo.

     – Rogério, já são quase quatro e meia da manhã, e isso não é plena noite – disse Duda. – Espere o tio Benê voltar com o restante das iscas, pois estas que pegamos não vão dar nem pro começo.

     – E porque as iscas não estavam no carro?

     – Bom, ele pediu para verificarmos tudo, e eu nem vou dizer quem ficou encarregado de checar as iscas.

     – Por que? Vai dizer que era eu?

     – Hum, hum – responderam Duda e Ciça, ao mesmo tempo, concordando com a cabeça.

     – Engraçado, muito engraçado. Prá vocês, sou o culpado de tudo.

     – De tudo não, Rogério – respondeu Ciça rindo – só daquilo que você apronta.

     – Vocês é que estão de marcação comigo. Foi por isso que riram da minha roupa, depois que me troquei e fui para o carro. É que vocês não entendem nada de pescaria e estão com inveja, isso sim!

     Ciça olhou para Duda e deu outra risada abafada.

     – Rogério, não fique chateado – disse Duda. – Você tem razão, nós rimos porque somos bobos, e não porque você me aparece com um colete que tem… hum… deixa eu ver, vinte e três bolsos, além é claro, desse chapéu com essas imitações de iscas penduradas na aba e…

     E Duda não conseguiu mais se segurar, e junto com Ciça, caíram na gargalhada.

     – Vocês é que não entendem nada de pescaria! Desse tatu nem perco tempo em falar, mas você, Ciça…

     Rogério deixou a frase no ar, olhando assustado para os lados. De súbito, o barco e tudo mais que havia nele começou a tremer e a vibrar.

     – O-O-O que-e é-é i-i-isso? – perguntou Rogério, com dificuldade para articular as palavras, a intensa vibração fazendo seus dentes baterem.

     – S-Sei l-lá, tá-á tudo v-vibrando como louco! – respondeu Duda, olhando à volta, tentando encontrar uma explicação.

     Não era apenas o barco ou as águas do lago. Para onde olhasse, havia a impressão de que tudo vibrava, incluindo o próprio ar, fazendo as imagens tremeluzirem, tornando a paisagem fantasmagórica, como se as imagens fossem desvanecer.

     No céu, uma vermelhidão crescente tomou conta da escuridão, e em poucos segundos, as próprias nuvens pareciam incandescentes. De súbito, uma imensa bola de fogo emergiu das nuvens e se precipitou nas águas do lago. O impacto imediatamente gerou uma imensa onda contra a embarcação, arremessando-a para o alto. Duda, Ciça e Rogério se seguravam como podiam, jogados para cima junto com o bote que, por pura sorte, não virou, quando alguns segundos depois, se precipitou, chocando-se com forte impacto contra as águas agitadas. Isso, porém, não impediu os três de tomarem um grande banho frio.

     – Ah, não, de novo, não, caraca! – praguejou Rogério, cuspindo um bocado de água.

     – Mas o que foi isso? – perguntou Ciça, assustada, ainda agarrada com força à borda do barco, com água escorrendo pelos cabelos e rosto.

     –Acho que foi um meteoro! – respondeu Duda. Embora molhado, ele se encontrava excitado com a possibilidade de um meteoro ter caído tão perto. – Um meteoro gigante e incandescente.

     Mas as deduções de Duda foram contrariadas de imediato. Novamente as águas começaram a vibrar e se agitar. A partir do ponto de impacto, ondas começavam a se levantar, cada vez mais intensas, jogando a embarcação para todos os lados.

     – Ai, o barco vai virar!

     – Não fala isso, Ciça, chega de banhos frios por hoje! – respondeu Rogério, tentando se firmar para não ser jogado para fora.

     Contudo, em poucos minutos, do mesmo modo como começara, as ondas diminuíram, até que as águas se acalmaram, mas não houve tempo para recuperar o fôlego.

     – Olhem! – gritou Duda.

     Lentamente, um imenso objeto metálico começou a se erguer do lago. A água escorria por sobre a estrutura que emergia e, pouco a pouco, todo o corpo do objeto foi se revelando, flutuando a poucos centímetros da superfície.

     Duda, Ciça e Rogério se achavam imóveis, os olhos grudados na súbita aparição. A menos que os três estivessem sonhando, aquilo realmente parecia uma nave espacial.

     Subitamente, as águas se iluminaram. Um facho de luz partiu da parte de baixo do misterioso objeto, bem rente à superfície do lago. O facho estendeu-se até o barco, envolvendo-o por completo. A luz não chegava a ofuscar, embora dificultasse a visão dos garotos. Duda levou a mão em forma de concha aos olhos, procurando protegê-los e ver mais claramente. Uma estreita abertura aparecera ao fundo da nave, e ele pensava ter visto uma figura saltar para o facho de luz.

     – Ei, vocês viram isso? Tem alguém ali! – disse Rogério, por cima dos ombros de Duda, e apontando para o objeto.

     Para surpresa de todos, o estranho começou a caminhar através da luz, como se andasse por cima das águas. Quase ao mesmo tempo, os três suspiraram aliviados. Eles não sabiam quem era o estranho ou de onde viera aquele gigantesco objeto, no entanto, se sentiam mais seguros ao verem uma figura semelhante a um homem, que se dirigia ao barco. Ainda assim, permanecia em silêncio, o coração batendo acelerado.

     A figura continuou caminhando até chegar próximo. Ele não trazia nada de especial em relação a equipamentos ou roupas. Salvo o fato de trajar uma espécie de macacão, todo negro, com botas ou sapatos integrados à roupa, sua aparência não tinha nada de anormal ou assustadora.

     – Seu nome é Eduardo Junqueira Silva, não? – questionou o homem, falando com um sotaque estranho e apontando para Duda.

     – S-Sim, sou eu – respondeu, perplexo, balançando a cabeça sem perceber, em sinal afirmativo.

     – Nós precisamos da sua ajuda.

     – M-Minha ajuda? Mas… nós, quem?

     – S-Sim, quem é você? – perguntou Ciça, encolhida e assustada, atrás do irmão e do amigo.

     – E de onde você vem? – completou Rogério, nenhum deles sequer se dando conta de que continuavam encharcados.

     – Sou o tenente Vus Rans. Represento o Alto Comando do Império Galáctico, do ano de 4612, e nós precisamos de sua ajuda, Eduardo.

     Duda apenas ficou de boca aberta, sem conseguir dizer qualquer palavra.

     – 4612? É sério? – perguntou Rogério, por fim, assim como os demais, visivelmente espantado.

     – Muito sério, não tenha dúvida. Eu não faria uma viagem dessas se a situação não fosse de extrema seriedade.

     – Mas como você me conhece e por que precisa de mim? – perguntou Duda, tentando ordenar os pensamentos e sobrepujar a surpresa.

     – É uma longa e complicada história. Vamos até a minha nave. Lá será mais fácil lhe mostrar o problema que temos, além de vocês poderem se secar.

     Eles se entreolharam, por fim, só então se lembrando de que se encontravam completamente molhados e com frio.

     – Nem pensar! – gritou Ciça, a primeira a quebrar o silêncio que se seguiu. – Como vamos saber que, uma vez lá dentro, você vai nos deixar sair de novo? E, o que nos garante que você não é um alienígena malvado, se fazendo passar por humano?

     Embora surpreendido pela pergunta, o tenente Vus achou graça da observação de Ciça.

     – E por que eu faria isso? Se quisesse prendê-los, simplesmente o faria, e não estaria aqui conversando com vocês, não acha, Maria Cecília?

     – Você sabe o meu nome também?

     – Claro que sim. Sei que tem doze anos, e muitas outras coisas mais. E este aqui é o Rogério, estou certo? – perguntou, se voltando para o menino que se achava mais à ponta do barco.

     – É… está certo, mas ainda assim não estou gostando dessa história, é muito estranha. Além do mais, precisava nos molhar deste jeito? Pelo visto, vocês não sabem pilotar muito bem essa coisa lá no ano quatro mil e sei lá quanto!

     – Isso foi um acidente, não era nossa intenção causar inconvenientes. Mais um motivo para vocês irem até a nave. Creio que devam estar frio, com essas roupas molhadas.

     Duda se levantou e encarou o visitante.

     – É, está frio sim, mas você tem vantagens sobre nós. Você sabe um monte de coisas, mas não sabemos nada a seu respeito ou o que quer com a gente.

     – Está bem, podemos conversar aqui fora, mas lá na nave seria muito mais confortável, lhes garanto. Agora, se preferem ficar molhados, por mim, tudo bem, a decisão é de vocês.

     Novamente, Duda olhou para Ciça e Rogério. Eles realmente estavam encharcados e com frio. O que aquele estranho falava tinha sentido. Não havia dúvida de que se quisesse levá-los à força, conseguiria fazê-lo, ainda mais com uma tecnologia que o permitia andar sobre um facho de luz.

     – E aí, o que nós fazemos? Vamos entrar?

     – Bom, seria ótimo poder me secar, e você com certeza está louco para ir, não está? – perguntou Ciça.

     – E você, não? – respondeu Duda com outra pergunta, já sabendo que, passado o medo inicial, a irmã deveria estar morrendo de curiosidade também. Aquilo era uma nave de verdade, e pelo que o homem dizia, uma que viajava no Tempo.

     – E você, Rogério, o que acha?

     – Bom, a nave é de verdade, não é? Está ali, e fim. Então, o que mais podemos fazer? Dizer não, obrigado, nós não estamos interessados, e eles vão embora, nos deixando aqui completamente encharcados? De jeito nenhum! Esse foi o segundo banho gelado que tomei hoje, e isso tem que valer alguma coisa. Não vamos perder uma oportunidade dessa, vamos lá, vamos conhecer essa nave por dentro.

     – Ótimo – disse o tenente.

     Rogério levantou a mão, pedindo um instante.

     – Só me diga uma coisa: se você veio lá do ano quatro mil e qualquer coisa, a mando desse tal de império, tinha que chegar justo agora? Não dava para vocês, lá no céu, esperarem só um pouquinho mais? – perguntou Rogério sério.

     – Mas, por quê? – quis saber o tenente Vus, curioso, assim como Duda e Ciça.

     – É que eu ia dar uma lição de como se pesca para esses dois, e o seu império, que não tinha mais nada para fazer, foi me atrapalhar bem na hora! – respondeu Rogério, não esperando por qualquer comentário ou se preocupando com a cara de espanto de todos. Sem dizer mais nada, e com um sorriso de satisfação, se dirigiu para a grande nave, descendo do barco e caminhando sobre o feixe de luz.

LANÇAMENTO NACIONAL – 20 DE AGOSTO DE 2009

BREVE – NOVO LIVRO DE NELSON MAGRINI.

•4 Julho, 2009 • 6 Comentários

OS GUARDIOES 

magrini1Uma grande notícia! A Giz Editorial acaba de confirmar o lançamento do novo livro de NELSON MAGRINI para o final de julho ou início de Agosto. Está só faltando confirmar a data exata com a Livraria onde ocorrerá o lançamento com a famosa seção de autógrafos. O Livro já está pronto e no estoque da editora. Mas, enquanto a obra não está disponível nas livrarias, o FONTES DA FICÇÃO trará, na próxima semana, mais precisamente no dia 10/07/2009, a publicação de um trecho inicial da obra “OS GUARDIÕES DO TEMPO”. Um presente para os leitores!

Quanto a data e o local exato do lançamento, informaremos assim que confirmados.

A ADMINISTRAÇÃO

NOVIDADES NO FONTES II

•28 Junho, 2009 • Deixe um comentário

Fontesfilmes

Olá, Pessoal!

Temos outra novidade para nossos leitores Fontenenses! No mês de Julho/2009 estréia aqui no FONTES, a coluna FILMES E CIA, onde, a cada mês, vocês poderão ler uma dica de Filme, Minissérie ou Seriado, sempre envolvendo o gênero Fantástico. Ficção Científica, Suspense, Terror, Fantasia, Animação, Super-heróis, tudo analisado por Tiago Castro. Mais uma novidade onde procuramos levar ao nosso público o maravilhoso universo ficcional.

Um grande abraço a todos!

 Tiago Castro

Quem é TIAGO CASTRO?

Diretor de Arte, Blogueiro e aspirante a Escritor de Literatura Fantástica. Desde de 2007 edita o Blog Insônia, onde escreve sobre Cinema, Literatura, Quadrinhos e Cultura POP em geral. Recentemente teve seus primeiros contos publicados aqui no Fontes da Ficção e no fanzine Adorável Noite.

Colaborador On Line do evento Fantasticon (Simpósio de Literatura Fantástica) que acontece todos os anos em São Paulo é apaixonado por Ficção Científica. Atualmente escreve um artigo científico cujo tema é “A influência da ficção científica na criação publicitária”, o qual deverá ser publicado ainda em 2009, na revista de comunicação Intercom.

O PÁSSARO DOURADO – PARTE 6, de James Andrade

•26 Junho, 2009 • Deixe um comentário

 corvos6

 

            Munin é a Memória encarnada do deus nórdico da Magia. E magia é sempre enigmática.

            Hermética, como preferem alguns.  

            Mesmo assim Siegfried percebe que alguma coisa está errada, Munin está mais tenso do que o seu normal, o que já é, por si só, ruim.

            Pelo visto o dia não foi bom para nenhum dos dois.

            — Eu estive lá. – Siegfried começa a falar bem baixinho, quase murmurando – Em Vinland[1], você sabe, o Novo Mundo. Muito tempo antes de Colombo, antes até da própria Espanha, eu e meus companheiros pisamos naquela terra. E derramamos o sangue daquela gente estranha. Eu… estive lá.

            “Sim, tu estiveste”. – concordou o Corvo, buscando um tom mais ameno.

            — Já fiz proezas inacreditáveis – continuou Siegfried – lutei batalhas épicas; derrotei inimigos que se diziam imbatíveis; estive em tantos lugares; vi tantas coisas. Conquistei glórias que fariam inveja ao próprio Thor[2]. Já fui alguém importante. Já fui grande. E agora? Olhe para mim; o que restou?! Diga-me, Munin, Corvo de Odin, quem sou eu?!

            Um pesado silêncio se seque à pergunta.

            “Tu és Siegfried, filho de Siegmundo; forjador da espada Nothung; matador do dragão Fafner, cujo sangue fez de tua pele invulnerável; intocado por Hela[3]. Olho para ti e vejo um guerreiro invencível, que atravessou eras, mas que resiste ainda em se adaptar aos novos tempos… E que precisa urgentemente de uma fêmea para acasalar”.

            O silêncio perdurou por mais alguns minutos, mas foi impossível para Siegfried evitar o sorriso.

            Leve, pouco mais que um arquear de lábios, mas um sorriso.

            — Não sei o me agrada mais em você, meu amigo de negras penas, a sua sensibilidade para os problemas alheios ou seu humor refinado – disse Siegfried um pouco mais animado – Ah! Você esqueceu de dizer uma coisa sobre mim; eu falo com pássaros, não aqueles como você, mas os outros, os comuns, essa habilidade veio junto com o pacote no sangue do safado do Fafner.

            Havia ainda uma outra coisa que o Corvo disse que não era verdade, e Siegfried percebeu, mas preferiu não comentar.

            Ele não era o forjador da espada Nothung. Não. A espada que fez nas forjas de Mime se quebrou pouco antes dele encontrar a Nothung. Siegfried não tem certeza, mas sempre desconfiou que ela, Nothung, é a espada perdida de Frey[4], aquela que, a um simples desejo de seu dono, espalhava a morte. Ele nunca conseguiu comprovar suas suspeitas, e nunca comentou isso com ninguém; isso é outra coisa que o Corvo não sabe. Talvez.

            “Fico feliz em ver que te fiz ao menos abrir os olhos e me fitar – disse o Corvo – agora sobe e tira estas tuas estranhas vestes, uses algo mais formal, pois hoje teremos visitas”.

            — Visitas, a esta hora? Espero que sejam as fêmeas das quais você falou, até que não é uma má idéia, valquírias para mim e harpias[5] para você…

            O humor de Siegfried aos poucos retornava, o incidente na academia já estava sendo esquecido. Mais uma vez ele enterrava fundo suas angústias, que ficariam à espreita, esperando outro acontecimento qualquer para lhe assaltar o coração. Desde há muito tem sido assim, só que, nos últimos tempos isso tinha acontecido com mais freqüência.

            E o Corvo percebia isso.

            Só não sabia como ajudar o amigo. Ultimamente Munin estava às voltas com suas próprias preocupações. Alguma coisa estava acontecendo, o Corvo podia sentir, mas não sabia o que era, e isso o afligia.   

            Com calma, Siegfried se levantou do sofá e foi até a lareira. E a acendeu. Chamas pequenas e hesitantes lançaram uma luz mortiça na sala.

            “Temo que nosso convidado não seja assim tão… apreciável”. – disse o Corvo, reassumindo um tom mais soturno.

            — Convidado? Seria por acaso aquele seu amigo magricela, o indiano? Até que seria bom revê-lo, ouvi dizer que ele tem umas amigas maravilhosas. Como é mesmo o nome dele? Rabi?

            “É Rajá! Barthari Rajá – responde o Corvo – mas não é o indiano que os auspícios disseram que viria, eles falaram de outro, acho que da terra dos Aqueus, mas não tenho certeza, nosso convidado me é desconhecido, não sei ‘quem’ ele é, sequer sei ‘o que’ ele é”.

            Como num passe de mágica Siegfried se transformou, toda a melancolia, toda a angústia, todas as dúvidas que o atormentavam desapareceram, e o guerreiro que ele sempre foi veio à tona.

            Munin se alegra, esta é, para o Corvo, a maior qualidade do amigo, não importa qual seja o seu estado emocional, assim que algo incomum se anuncia, o guerreiro que há nele desperta. Pena que, passado o momento de tensão ele volte a ficar macambúzio.   

            — Um estranho!? Você viu sua chagada nas entranhas? – perguntou Siegfried.

            “Não foi necessário nenhuma evisceração; ainda a pouco encontrei uma águia de penas douradas perdida na floresta. Uma águia grega”.

            O Corvo relata ao amigo o inusitado encontro que teve na floresta, e a leitura que fez do acontecido.

            “Alguém virá, de muito, muito longe e pedirá, ou oferecerá, ajuda contra algo, ou alguém, não posso dizer com certeza, mas alguém virá e nós teremos que decidir o que fazer”.

            E tal decisão, teme o Corvo, poderá selar o destino de ambos, mas isso ele não diz ao amigo, mesmo porque ele não poderá fazer nada, Munin acredita que aquilo que o aflige a tantos anos finalmente ameaça tragá-los para uma teia de eventos que dificilmente poderá ser evitada.

            E Siegfried já tem problemas demais.

            — Então é melhor tirar este agasalho esportivo e me vestir com esmero, gregos costumam ser muito rigorosos quanto à etiqueta e outras tantas bobagens, em muitos aspectos eles se parecem com você, que pode parecer um corvo agourento, mas que é um apreciador das boas maneiras – disse Siegfried, saindo da sala – você sabia que eles, os gregos, contam lendas sobre um guerreiro que era muito parecido comigo? Sua pele também era invulnerável e tudo o mais, mas tinha um ponto fraco, no calcanhar eu acho; lugar besta para um ponto fraco. Gostaria de ter lutado com ele, seria uma luta digna de odes e poemas, mas dizem que ele morreu em uma guerra, na tomada de uma cidade de altas muralhas; o que mostra que sou um herói maior do que ele, não é mesmo? Afinal, ainda estou vivo, não concorda comigo Munin? – a voz vinha de longe, ele já estava na escada que dava acesso ao segundo andar da casa.

            “Nenhum herói resiste a uma vida longa, e a sua, meu amigo, tem sido muito, muito longa”.

            Pensou Munin, mas não disse nada.          

 

 

continua…

 


[1] Vinland, suposto nome nórdico para as Américas, mais precisamente, para a América do Norte.

[2] Thor, na mitologia nórdica, era o Deus do Trovão e o filho mais velho de Odin.

[3] Hela (a Morte), filha do deus nórdico do Mal, Loki, ganhou de Odin (ou foi forçada a aceitar) o poder sobre os Nove Mundos de Niffleheim (as Trevas Geladas).

[4] Frey, na mitologia nórdica, era o deus que tinha poder sobre a chuva; sobre o brilho do Sol e sobre todos os frutos da Terra.

[5] Harpias, seres da mitologia greco-romana, tinham face de mulher e corpo de abutre e, em algumas versões, suas penas eram de aço.

AZAZEL – ISSAC ASIMOV

•20 Junho, 2009 • Deixe um comentário

FontesLiterat

asimov-azazel2vTítulo:           AZAZEL

Autor:            ISSAC ASIMOV

Editora:        Record

N° Páginas:             222

ISBN:            85-01-03808-3

O AUTOR

Falecido em 06/04/1992, foi reconhecido ainda em vida um dos “Três Grandes” escritores de Ficção Científica, juntamente com Robert A Heinlein e Arthur C. Clark.

Sua obra mais famosa é a série “Fundação”, também conhecida como a “Trilogia da Fundação”. Escreveu também outros gêneros e é uma dessas suas obras que irei abordar.

A OBRA

AZAZEL é uma coletânea de contos de ISAAC ASIMOV, primeiramente publicada em 1988. As histórias tomam a forma de uma conversa entre o autor desconhecido e um amigo chamada George, capaz de conjurar um demônio de 2 centímetros de altura, ao qual chama AZAZEL e que possui poderes fabulosos.

Dono de um gênio impulsivo, AZAZEL interfere na vida das pessoas causando inesperadas e hilariantes confusões.

RossanaMINHA OPINIÃO

Peço aos leitores que se lembrem ser esta obra uma coleção de sátiras humorísticas. Não esperem algo contrário por tratar-se de Asimov ou ficarão decepcionados. 

Azazel é um demônio bonzinho, que insiste que seus poderes devem ser usados para fazer o bem a outras pessoas, mas que acaba sempre em trapalhadas. 

Desde o primeiro conto “O demônio de dois centímetros” podemos ver que George é na verdade um falastrão! Diz-se descendente de uma família altamente aristocrática, mas sem recursos, considera-se intelectualmente superior a seu interlocutor e condescendente com suas limitações. 

Dono de um coração enorme e completamente desinteressado (imagina se isso é verdade!) utiliza maneiras mágicas descobertas por um de seus antepassados para requisitar a ajuda de Azazel em situações das mais variadas, interrompendo o pequeno demônio em situações por demais inusitadas. 

Sempre visando satisfazer a vontade de algum conhecido e adulando o pequeno demônio, George cria as mais disparatadas situações. Desde melhorar os reflexos de um jogador de basquete por quem sua afilhada Juniper está apaixonada até melhora a aparência de outra afilhada que só pensa em fazer o marido feliz, George tenta fazer a felicidade de seus conhecidos e as falhas, mas não reconhecidas como tal, sempre recaem sobre a impossibilidade de compreender a humanidade como um todo pelo demoniozinho.  

Em suas histórias vemos que os interessados em sua ajuda nem sempre possuem os desejos mais elevados ao solicitá-la, uma vez que em suas próprias palavras, George “acaba sempre atraindo confidências pela sua aparência de honestidade e nobreza”.

Passamos por situações de vingança, disfarçada em reconhecimento em “Uma noite de música” e “O sorriso roubado” nos remete ao “Retrato de Dorian Grey” onde o quadro pintado reflete a situação da alma de Dorian e no conto, uma foto tratada por Azazel suga toda a felicidade de Kevin, marido taciturno de Rose, afilhada de George que reclama que o marido anda muito fechado e gostaria de uma foto de um momento feliz para lembrar-se do por que se apaixonou pelo marido. 

“Ao Vencedor” representa Theophilus, ignorado pelas mulheres até Azazel mexer em seus feromônios (responsável químico pela atração entre macho e fêmea na natureza) e torna-lo irresistível até demais. 

Em “O ruído abafado” descobrimos uma possível causa para a extinção dos dinossauros não muito divulgada, mas que também pode acabar com a raça humana. “Salvando a humanidade” é o exemplo clássico de egocentrismo, onde para compensar a má sorte, um amigo de George (Meneander) deseja poder salvar o mundo através de sua má-sorte/boa-sorte após a ajuda de Azazel e fica com má sorte para computadores, ou seja, todos param de funcionar perto dele.

Assim seria possível após um evento apocalíptico tipo “Matrix”, onde as máquinas dominam a humanidade ou até mesmo “Exterminador do Futuro” onde as máquinas querem destuir a humanidade que somente ele fosse capaz de algo. Resumindo, acaba num hospício. Todos os contos sempre apresentam situações simples na vida de uma pessoa, algo que as torna infelizes ou assim acreditam até a interferência de George e Azazel, seja bloqueio criativo (”Uma questão de princípios”), timidez absurda (”Os males da bebida”), falta de tempo (“Tempo para escrever”), Medo de água (“Deslizando sobre a neve”) e outros.  Sempre filosofando sobre o que é certo e digno, fazendo pouco caso de seu interlocutor, George e Azazel, levam os amigos ao desespero após tentar ajuda-los da forma mais desajeitada possível. 

Trata-se de uma obra única do grande mestre de ficção, que nos mostra que nada pode superar o gênio.

ONDE COMPRAR

http://www.ciadoslivros.com.br/book_details.asp?ProdId=AS0066

OBRA DO PRÓXIMO MÊS

raiosTítulo: O Ladrão de Raios

Autor: Rick Riordan

Editora: Intrinseca

 

 

O BARRIL DOS AMONTILLADOS, de Edgar Allan Poe

•14 Junho, 2009 • Deixe um comentário

Amontillado2 

          Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer idéia de risco. Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu.

          Deve compreender-se que nem por palavras, nem por atos, dei motivos a Fortunato para duvidar da minha afeição. Continuei, como era meu desejo, a rir-me para ele, que não compreendia que o meu sorriso resultava agora da idéia da sua imolação.

            Tinha um ponto fraco, este Fortunato sendo embora, sob outros aspectos, homem digno de respeito e mesmo de receio. Orgulhava-se da sua qualidade de entendido em vinhos. Poucos italianos possuem o verdadeiro espírito de virtuosidade. Na sua maior parte, o seu entusiasmo é adaptado às circunstâncias de tempo e de oportunidade para ludibriar milionários britânicos e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunato, à semelhança dos seus concidadãos, era um charlatão, mas na questão de vinhos era entendido. Neste aspecto eu não diferia substancialmente dele: eu próprio era entendido em vinhos de reserva italianos, e comprava-os em grandes quantidades, sempre que podia.

            Foi ao escurecer, numa tarde de grande loucura da quadra carnavalesca, que encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessivo calor, pois bebera de mais. Trajava de bufão; um fato justo e parcialmente às tiras, levando na cabeça um barrete cônico com guizos. Fiquei tão contente de o ver que julguei que nunca mais parava de lhe apertar a mão.

            – Meu caro Fortunato – disse eu –, ainda bem que o encontro. Você tem hoje uma aparência notável! Saiba que recebi um barril de um vinho que passa por ser amontillado; mas tenho cá as minhas dúvidas.

            – O quê? – disse ele – Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno Carnaval!

            – Tenho as minhas dúvidas – respondi –, e estupidamente paguei o verdadeiro preço do amontillado sem ter consultado o meu amigo. Não o consegui encontrar e tinha receio de perder o negócio!

            – Amontillado!

            – Tenho minhas dúvidas – insisti.

            – Amontillado!

            – E tenho que as resolver!

            – Amontillado!

            – Como vejo que está ocupado, vou procurar Luchesi. Se existe alguém com espírito crítico, é ele. Ele me dirá.

            – Luchesi não distingue amontillado de xerez.

            – No entanto, há muito idiota que acha que o seu gosto desafia o do meu amigo.

            – Venha, vamos lá.

            – Aonde?

            – À sua cave.

            – Não, meu amigo, não exigiria tanto da sua bondade. Vejo que tem compromissos. Luchesi…

            – Não tenho compromisso nenhum, vamos.

            – Não, meu amigo. Não será o compromisso, mas aquele frio terrível que bem sei que o aflige. A cave é insuportavelmente úmida. Está coberta de salitre.

            – Mesmo assim, vamos lá. O frio não é nada. Amontillado! Você foi ludibriado. E quanto a Luchesi, não distingue xerez de amontillado.

            Assim falando, Fortunato pegou-me pelo braço. Depois de pôr uma máscara de seda preta e de envergar um roquelaire cingido ao corpo, tive que suportar-lhe a pressa que levava a caminho do meu palacete.

            Não havia criados em casa; tinham desaparecido todos para festejar aquela quadra. Eu tinha-lhes dito que não voltaria senão de manhã e dera-lhes ordens explícitas para se não afastarem de casa. Ordens essas que foram o suficiente, disso estava eu certo, para assegurar o rápido desaparecimento de todos eles, mal voltara costas.

            Retirei das arandelas dois archotes e, dando um a Fortunato, conduzi-o através de diversos compartimentos até à entrada das caves. Desci uma grande escada de caracol e pedi-lhe que se acautelasse enquanto me seguia. Quando chegamos ao fim da descida encontrávamo-nos ambos sobre o chão úmido das catacumbas dos Montresors.

            O andar do meu amigo era irregular e os guizos da capa tilintavam quando se movia.

            – O barril? – perguntou.

            – Está lá mais para diante – disse eu –, mas veja a teia branca de aranha que cintila nas paredes da cave.

            Voltou-se para mim e pousou nos meus olhos duas órbitas enevoadas pelos fumos da intoxicação.

            – Salitre? – perguntou por fim.

            – Sim – respondi. – Há quanto tempo tem essa tosse?

            – Hâg!, hâg!, hâg! Hâg!, hâg!, hâg!

            O meu amigo ficou sem poder responder-me durante bastante tempo.

            – Não é nada – acabou por dizer.

            – Venha – disse-lhe com decisão. – Retrocedamos, a sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz como eu já o fui em tempos. Você é um homem cuja falta se sentiria. Quanto a mim, não importa. Retrocedamos. Ainda é capaz de adoecer e não quero assumir tal responsabilidade. Além disso, há Luchesi…

            – Basta! – replicou. – A tosse não é nada, não me vai matar. Não vou morrer por causa da tosse.

            – Pois decerto que não, pois decerto – respondi –; não é minha intenção alarmá-lo desnecessariamente, mas deve usar de cautela. Um gole deste médoc defender-nos-á da umidade.

            Quebrei o gargalo de uma garrafa que retirei de uma longa fila de muitas outras iguais que jaziam no bolor.

            – Beba – disse, apresentando-lhe o vinho.

            Levou-o aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e abanou a cabeça significativamente, enquanto os guizos tilintavam.

            – Bebo – disse – aos mortos que repousam à nossa volta.

            – E eu para que você viva muito.

            Novamente me tomou pelo braço e prosseguimos.

            – Estas catacumbas são enormes – disse ele.

            – Os Montresors – respondi – constituíam uma família grande e numerosa.

            – Não me lembro do vosso brasão.

            – Um enorme pé humano, de ouro, em campo azul; o pé esmaga uma serpente cujas presas estão ferradas no calcanhar.

             – E a divisa?

             – Nemo me impune lacessit.

             – Ótimo! – disse ele.

             O vinho brilhava no seu olhar e os guizos tilintavam. A minha própria disposição melhorara com o médoc. Tinha passado por entre paredes de ossos empilhados, à mistura com barris e pipos, nos mais recônditos escaninhos das catacumbas. Parei novamente e desta vez fiz questão de segurar Fortunato por um braço, acima do cotovelo.

            – Salitre! – disse eu –, veja como aumenta. Parece musgo nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade escorrem por entre os ossos. Venha, vamo-nos embora que já é muito tarde. A sua tosse…

             – Não faz mal – retorquiu –, continuaremos. Antes, porém, mais um trago de médoc.

             Abri e passei-lhe uma garrafa de De Grâve. Despejou-a de um trago. Os olhos brilharam-lhe com um fulgor feroz. Riu e atirou a garrafa ao ar, com uns gestos que não entendi. Olhei-o surpreso. Repetiu o movimento grotesco.

            – Não compreende?

            – Não, não compreendo – respondi.

            – Então não pertence à irmandade.

            – Como?

            – Quero eu dizer que não pertence à Maçonaria.

            – Sim, sim – disse –, sim, pertenço.

            – Você? Impossível! Um maçon?

            – Sim, um maçon – respondi.

            – Um sinal – disse ele.

            – Aqui o tem – retorqui, mostrando uma colher de pedreiro que retirei das dobras do meu roquelaire.

            – Está a brincar – exclamou, recuando alguns passos. – Mas vamos lá ao amontillado.

            – Assim seja – disse eu, tornando a colocar a ferramenta sob a capa e tornando a oferecer-lhe o meu braço. Apoiou-se nele pesadamente. Continuamos o nosso caminho em procura do amontillado. Passamos por uma série de arcos baixos, descemos, atravessamos outros, descemos novamente e chegamos a uma profunda cripta na qual a rarefação do ar fazia com que os archotes reluzissem em vez de arderem em chama.

            No ponto mais afastado da cripta havia uma outra cripta menos espaçosa. As paredes tinham sido forradas com despojos humanos, empilhados até à abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três das paredes desta cripta interior estavam ainda ornamentadas desta maneira. Na quarta parede, os ossos tinham sido derrubados e jaziam promiscuamente no solo, formando num ponto um montículo de certo vulto. Nessa parede assim exposta pela remoção dos ossos, percebia-se um recesso ainda mais recôndito, com um metro e vinte centímetros de fundo, noventa centímetros de largo e um metro e oitenta a dois metros e dez de alto. Parecia não ter sido construído com qualquer fim específico, constituindo apenas o intervalo entre dois dos colossais suportes do teto das catacumbas, e era limitado, ao fundo, por uma das paredes circundantes em granito sólido.

            Foi em vão que Fortunato, levantando o seu tíbio archote, tentou sondar a profundidade do recesso. A enfraquecida luz não nos permitia ver-lhe o fim.

            – Continue – disse eu –, o amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi…

            – É um ignorante – interrompeu o meu amigo, enquanto avançava, vacilante, seguido por mim. Num instante atingira o extremo do nicho, e vendo que não podia continuar por causa da rocha, ficou estupidamente desorientado. Um momento mais e tinha-o agrilhoado ao granito. Havia na parede dois grampos de ferro, distantes um do outro, na horizontal, cerca de sessenta centímetros. De um deles pendia uma pequena corrente e do outro um cadeado. Lançar-lhe a corrente em volta da cintura e fechá-la foi obra de poucos segundos. Ficara demasiado surpreendido para oferecer resistência. Retirei a chave e recuei.

            – Passe a mão pela parede – disse eu. – Não deixará de sentir o salitre. Na realidade está muito úmido. Mais uma vez lhe suplico que nos retiremos. Não lhe convém? Nesse caso, tenho realmente de o deixar. Mas, primeiro, quero prestar-lhe todas as pequenas atenções ao meu alcance.

            – O amontillado! – berrou o meu amigo, que se não recompusera ainda do espanto em que se encontrava.

            – É verdade – respondi. – O amontillado.

            Ao dizer isto, pus-me a procurar com todo o afã por entre as pilhas de ossos de que já falei. Atirando com eles para o lado, pus a descoberto uma quantidade de pedras e argamassa. Com estes materiais e com a ajuda da minha trolha, comecei a entaipar com todo o vigor a entrada do nicho.

            Mal tinha colocado a primeira fiada de pedras quando descobri que a embriaguez de Fortunato tinha em grande parte desaparecido. A este respeito, o primeiro indício foi-me dado por um longo gemido vindo da profundidade do recesso. Não era o gemido de um ébrio. Sucedeu-se um prolongado e obstinado silêncio. Pus a segunda fiada de pedras, a terceira e a quarta. Em seguida ouvi as vibrações furiosas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para me ser possível ouvi-lo com maior satisfação, suspendi a minha tarefa e sentei-me no montículo de ossos. Quando finalmente cessou o tilintar, retomei a trolha e completei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima fiadas. A parede estava agora quase ao nível do meu peito. Parei novamente e, elevando o archote acima do parapeito, fiz incidir alguns raios de luz sobre a figura que lá estava dentro.

             Uma sucessão de gritos altos e agudos, irrompendo de súbito da garganta da figura agrilhoada, quase me atirou violentamente para trás. Por um breve momento hesitei, tremi. Desembainhei o florete e com ele comecei a tatear o recesso, mas bastou pensar um momento para voltar a sentir-me seguro. Coloquei a mão sobre a sólida construção das catacumbas e fiquei satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede. Respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os como um eco, juntei-me a eles, ultrapassei-os em volume e força. Depois disto, o outro sossegou.

            Era agora meia-noite e a minha tarefa aproximava-se do fim. Completara já a oitava, a nona e a décima fiada. Tinha acabado uma porção da décima primeira e última; faltava apenas colocar e fixar uma pequena pedra. Lutava com o seu peso; coloquei-a parcialmente na posição que lhe cabia. Soltou-se então do nicho um riso abafado que me arrepiou os cabelos. Seguiu-se uma voz triste que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. Dizia aquela voz:

             – Ah!, ah!, ah!, eh!, eh!, boa piada, de fato, excelente gracejo. Havemos de rir bastante acerca disto, lá no palácio, eh!, eh!, eh!, acerca do nosso vinho, eh!, eh!, eh!

             – O amontillado? – disse eu.

             – Eh!, eh!, eh!, eh!, eh!, eh!, sim, o amontillado. Mas não estará a fazer-se tarde? Não estarão à nossa espera no palácio lady Fortunato e os convidados? Vamo-nos embora.

             – Sim – disse eu –, vamo-nos.

              – Pelo amor de Deus, Montresor!

               – Sim – disse eu –, pelo amor de Deus!

                Em vão esperei uma resposta a estas palavras. Comecei a ficar impaciente. Chamei em voz alta:

                – Fortunato!

                Não obtive resposta. Chamei novamente:

                 – Fortunato!

                 Continuei sem resposta. Meti um archote pela pequena abertura e deixei-o cair lá dentro. Em resposta ouvi apenas um tilintar de guizos. Senti o coração oprimido, dada a forte umidade das catacumbas. Apressei-me a pôr fim à minha tarefa. Forcei a última pedra no buraco, e fixei-a com a argamassa. De encontro a esta nova parede tornei a colocar a velha muralha de ossos. Durante meio século nenhum mortal dos perturbou. In pace requiescat.

FIM

 Edgar Allan Poe (Boston, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, 7 de Outubro de 1849) foi um escritor, poeta, romancista, crítico literário e editor estado-unidense. Poe é considerado, juntamente com Julio Verne, um dos precursores da literatura de ficção científica e fantástica modernas. Algumas das suas novelas, como The Murders in the Rue Morgue (Os Crimes da Rua Morgue), The Purloined Letter (A Carta Roubada) e The Mystery of Marie Roget (O Mistério de Maria Roget), figuram entre as primeiras obras reconhecidas como policiais, e, de acordo com muitos, as suas obras marcam o início da verdadeira literatura NORTE-AMERICANA.

O PORTADOR DA LUZ – PARTE FINAL, de Nelson Magrini

•5 Junho, 2009 • 6 Comentários

 

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29

         Entre o alerta da Logística e a preparação de uma força militar de emergência, sitiada no Rio de Janeiro, e envio ao Corcovado, passou-se pouco mais de meia hora. Eram dois veículos médios velozes, que transportavam um total de quinze homens, fortemente armados e especialistas em ações relâmpagos, sob o comando do capitão Gurgel.

       – Sem complicação ou hesitação. Chegamos, entramos, anulamos a presença hostil e finalizamos.

       – O indivíduo tem mesmo uma bomba atômica, capitão? Difícil acreditar, não?

        O capitão voltou-se para o sargento, veterano tarimbado, com anos de experiência em ações de assalto relâmpago.

        – Foi o que disseram. Não ligo a mínima se ele tem uma bomba atômica, uma montanha de dinamite ou traques de São João. Nossas ordens são para eliminar a ameaça, inclusive com força letal, se necessário.

        – Mas capitão, e se esse louco resolver explodir tudo, assim que entrarmos? – questionou um dos soldados.

        – Tá com medo de morrer, moleque? – respondeu um colega, mais atrás. – Pense assim, se isso acontecer, e esse maluco tiver mesmo uma bomba atômica, ele irá mandar todos nós para o ar, junto com o Rio de Janeiro! Cê vai passar desta para melhor, tendo a cidade maravilhosa por companhia!

       O capitão Gurgel chegou a sorrir, pelo gracejo.

       – Ossos do ofício, rapaz. Quando você vestiu essa farda, sabia que sua vida poderia estar em jogo, a qualquer hora. Mas não se preocupe – prosseguiu, em tom conciliador – otimismo faz parte das qualidades desta equipe. Vamos chegar e eliminar a ameaça. O resto, depois, será história.

        Em hipótese alguma, o capitão Gurgel imaginava quão verídica seria aquela última frase.

30

       Ignorando a força militar que se movimentava e se dirigia às pressas, para o Corcovado, Moisés apenas aguardava, olhando constantemente em seu relógio. Naquela manhã, os demais trabalhadores haviam sido dispensados, e ele se encontrava ali sozinho, compartilhando aquele momento de paz, apenas com o vento e o céu límpido e ensolarado. Como lhe haviam prometido, a grande caixa fora instalada, e caberia a ele apertar o botão.

        Moisés era um misto de orgulho e ansiedade, a cada instante que se passava, com o tempo correndo para o derradeiro momento. O resto não importava, nada mais importava. Ele seria o braço de Deus, e para tanto, não se preocupava que pudesse perder a vida nesse ato, mesmo porque, não seria a morte. Na verdade, seria o renascer para a verdadeira vida, aquela que é eterna e onde não havia pecado ou sofrimento, onde finalmente encontraria o esplendor de ser e o carinho tanto almejado. Conforme lhe garantira o bondoso, porém austero, senhor Renan, entregar a vida, em nome do Senhor, não é pecado; é uma oportunidade única, sem precedentes.

        Moisés voltou-se uma vez mais para o relógio. Faltavam alguns segundos para o meio dia. A hora se aproximava. A luz e a palavra; o raio e o trovão se fariam presentes. Em seus pensamentos, uma frase que Renan lhe dissera, há poucos dias, ecoava com força e vigor.

       O castigo divino não pode vir através de um controle remoto. Deve vir através das mãos de seus seguidores. Suas mãos, Moisés!

       Sem dizer nada, com um sorriso calmo e sereno, mas radiante, como em êxtase, ele pressionou o botão.

31

         Os dois veículos avançavam velozmente. O que vinha à frente freou de leve, antes de iniciar o contorno da última curva, que o levaria diretamente à frente do monumento. Em dois ou três segundos, iria contorná-la e parar defronte à estátua.

         Contudo, aqueles segundos derradeiros se perderam na eternidade.

 32 

        Primeiro veio a luz invisível, que precedeu o silêncio.

        Por frações imperceptíveis de segundos, as pessoas ficaram transparentes; tudo ficou transparente.

        A seguir veio o raio, e todos ficaram cegos; contudo, não chegaram a se aperceber disso. Nessas mesmas frações de segundos, foram todos instantaneamente vaporizados pelo fogo, a temperatura beirando próxima a um milhão de graus centígrados. A água do mar entrou em ebulição e se vaporizou, assim como ferro e concreto.

        E só então, em meio a ventos avassaladores, veio o trovão.

        No entanto, já não havia nada, nem ninguém, vivo para escutá-lo.

 33 

        Estados Unidos. Noticiário noturno da CNN.

       – Boa noite. O mundo chocado e em alerta – iniciou o âncora com a manchete de destaque. – O mundo ainda está em estado de choque pelo ocorrido no Rio de Janeiro, Brasil, há algumas horas, apenas. A notícia do primeiro atentado nuclear assombrou os governos de todos os países, uma temeridade real entre muitos que se vêem envolvidos com ameaças terroristas. Mas ninguém poderia imaginar que uma tragédia dessas proporções atingiria um país que não possui participação direta em tais questões. As preliminares indicam mais de dois milhões de vítimas fatais, mas esse número ainda deve aumentar, nos próximos dias, por causa da intensa radiação que assola a região devastada, e pelos ventos, que devem espalhar esta mesma radiação para áreas adjacentes.

        A figura do repórter foi substituída por imagens da tragédia.

        – No momento, é impossível de se determinar a extensão dos danos, mas seguramente é o maior desastre ecológico do planeta, bem como o de vítimas causada por uma arma de destruição em massa, e tudo devido ao fanatismo e a loucura de um homem, João Cândido Renan, um pregador intolerante com os demais, em relação às suas crenças. Após o ocorrido, Renan foi localizado na sede da Igreja da Luz e da Revelação. Pelo que foi apurado, em sua loucura, Renan não procurou fugir e pretendia fazer uma declaração, aos meios de comunicação, exaltando a todos à volta a uma vida regada e austera, se quisessem fugir à punição de Deus. Contudo, quando cercado pela polícia e agentes de segurança, João Cândido Renan fugiu pela única saída que tinha, atirando-se do décimo andar de seu prédio. Todos os demais envolvidos com a direção da entidade foram detidos.

        As imagens desapareceram, voltando ao âncora.

        – O ocorrido não deixa dúvidas, e a verdade se mostra ao mundo da maneira mais dolorosa possível. O fanatismo, em todas as suas extensões, é hoje, seguramente, o maior medo da humanidade.

        Em seguida, há o corte para os comerciais, retornando ao âncora, instantes depois.

        – E atenção, notícia de última hora. Conforme se apurou, João Cândido Renan estava de posse de duas ogivas nucleares. O paradeiro da segunda é desconhecido.

FIM?

DO ALÉM, de H. P. Lovecraft

•30 Maio, 2009 • Deixe um comentário

Do Alem

            Horrível foi a mudança por que passou meu melhor amigo, Crawford Tillinghast. Eu não o vira desde aquele dia, dois meses e meio antes, quando ele me falou da meta em direção à qual suas pesquisas físicas e metafísicas se encaminhavam e quando respondeu à minha demonstração de espanto e medo expulsando-me de seu laboratório e de sua casa num estouro de raiva fanática. Eu sabia que ele agora passava a maior parte do tempo fechado em seu laboratório no sótão com aquela maldita máquina elétrica, comendo pouco e afastado até dos próprios criados. Mas não pensara que um período tão breve de dez semanas pudesse alterar e desfigurar de tal maneira uma criatura humana. Não há prazer em ver um homem garboso tornar-se magro de repente, e é pior ainda quando a pela flácida começa a amarelar ou a acinzentar, os olhos fundos, esgazeados, brilhando de modo sobrenatural, a atesta enrugada e coberta de veias, e as mãos trêmulas e contorcidas. E se, adicionado a isso houver um desalinho repulsivo, uma desordem louca do vestir, moitas de cabelos escuros esbranquiçados na raiz, e uma sombra de barba não aparada sobre um queixo que sempre fora cuidadosamente barbeado, o efeito cumulativo será chocante. Mas esse era o aspecto de Crawford Tillinghast na noite em que sua mensagem pouco coerente me trouxe até sua porta depois de semanas de exílio. Tal era o espectro que tremia enquanto me fazia entrar, uma vela na mão, a olhar furtivamente por sobre o ombro, como se receoso de coisas invisíveis na casa antiga e solitária, situada ao fundo da Benevoloent Street.

            Para Crawford Tillinghast, ter um dia estudado ciência ou filosofia fora um erro. São coisas que deveriam ser deixadas para o investigador impessoal e frio, pois oferecem duas alternativas igualmente trágica ao homem de sentimento e ação: desespero, se fracassa em sua busca, e terrores indizíveis e inimagináveis, se obtém sucesso. Tillinghast fora vítima uma vez do fracasso, da reclusão e da melancolia, mas agora eu sabia, entre receio repelente de minha parte, que ele era vítima do sucesso. De fato, eu o tinha alertado, duas semanas antes, quando aventou, num ímpeto, a história do que estava preste a descobrir. Tornara-se vermelho e excitado, falando num tom de voz muito alto e antinatural, embora sempre pedante.

            “O que sabemos”, dissera ele, “sobre o mundo e o universo ao nosso redor? Nossos meios de receber impressões são absurdamente escassos, e nossas noções dos objetos que nos cercam são infinitamente estreitas. Vemos as coisas somente na medida em que somos construídos para vê-las e não poidemos fazer idéia alguma de sua natureza absoluta. Com cinco débeis sentidos, queremos compreender o cosmos ilimitadamente complexo, enquanto outros seres, com uma gama de sentidos diferentes, mais ampla ou mais possante, não apenas poderiam ver de modo diferente as coisas que vemos, como também ver e estudar mundos inteiros de matéria, energia e vida que jazem próximos de nós, mas que não podem ser detectados com os sentidos que temos. Sempre acreditei que tais mundos, estranhos e inacessíveis existem colados aos nossos cotovelos, e agora creio que encontrei um modo de romper as barreiras. Não estou blefando. Dentro de vinte e quatro horas aquela máquina sobre a mesa gerará ondas que agirão sobre órgãos ignorados de sentidos que existem em nós como vestígios atrofiados ou rudimentares. Essas ondas abrirão para nós inúmeros panoramas desconhecidos do homem e muitos desconhecidos de qualquer coisa que consideramos como vida orgânica. Haveremos de ver aquilo para o qual os cachorros uivam na escuridão, aquilo para o qual os gatos levantam suas orelhas após a meia-noite. Veremos essas coisas e outras que nenhuma criatura que respira jamais viu. Vamos saltar sobre o tempo, o espaço e as dimensões e, sem mover nossos corpos, espiar o fundo da criação“.

            Quando Tillinghast disse essas coisas, não disfarcei, pois o conhecia bem o suficiente para ter muito mais receio do que admiração; mas ele era um fanático e expulsou-me da casa. Agora ele não era menos fanático, mas seu desejo de falar sobrepujara o ressentimento, e ele me escrevera num tom imperativo, com uma caligrafia quase ilegível. Quando penetrei na casa desse amigo tão subitamente metamorfoseado numa gárgula vacilante, infectou-me o terror que parecia espreitar em meio a todas as sombras. Era como se as palavras e crenças expressas dez semanas antes se encarnassem na escuridão que cercava o pequeno círculo de luz da vela, e senti-me mal diante da voz oca e alterada de meu anfitrião. Desejei que os criados estivessem por perto e não gostei quando ele disse que todos tinham deixado a casa havia três dias. Pareceu estranho que o velho Gregory, ao menos, pudesse desertar de seu senhor sem dizer isso a um amigo tão próximo como eu. Era ele que me dava toda a informação que tive sobre Tillinghast depois que, furioso, este me expulsou.

            No entanto, logo obriguei meus medos a se subordinarem à minha curiosidade e fascinação. O que é que Crawford Tillinghast queria de mim agora eu podia até conjecturar, mas de que ele tinha algum segredo ou descoberta estupenda para revelar, disso eu não duvidava. Antes eu protestara contra sua perquirição indiscreta do impensável, e agora que ele evidentemente tivera algum tipo de sucesso eu quase compartilhava seu espírito, por mais terrível que pudesse ser o custo da vitória. Seguindo a luz vacilante da vela que a mão daquela paródia trêmula de homem segurava, subi em direção à escuridão vazia da casa. A eletricidade parecia ter sido desligada, e quando perguntei ao meu guia ele disse que era por um motivo definido.

            “Seria demais… Eu não ousaria”, ele continuava a murmurar. Notei em especial esse seu novo hábito de murmurar, pois não era do seu feitio falar sozinho. Entramos na laboratório no sótão, e observei aquela detestável máquina elétrica a cintilar com uma luminosidade doentia, sinistra, violeta. Estava conectada a uma potente bateria química, mas não parecia receber corrente, pois em me lembrava de que em seu estágio experimental ela tinha roncado e ciciado quando posta em ação. Em resposta à minha pergunta, Tillinghast sussurrou que esse brilho permanente não era elétrico em nenhum sentido que eu pudesse entender.

            Ele me fez sentar próximo à máquina, de modo que ela ficou à minha direita, e acionou um comutador que ficava por baixo de uma profusão de bulbos de vidro. Os estalos usuais começaram, tornaram-se um gemido, e terminaram num rumor monótono e tão suave que dava impressão de retornarem ao silêncio. Entrementes a luminosidade aumento, diminuiu, até assumir uma tonalidade pálida e inusitada ou uma mistura de cores que eu não poderia situar ou descrever. Tillinghast tinha estado a me observar, notando minha expressão de perplexidade.

            “Sabe o que é isso?”, murmurou. “Isso é ultravioleta”. E gargalhou ao ver a minha surpresa. “Pensou que o ultravioleta era invisível, e é – mas você pode vê-lo e a muitas outras coisas agora. Ouça-me! As ondas dessa coisa estão despertando em você mil sentidos adormecidos – sentidos que você herdou de éons de evolução, desde o estado dos elétrons errantes até o estado da humanidade orgânica. Eu vi a verdade, e pretendo mostrá-la a você. Faz idéia de como ela se parece? Vou dizê-lo a você”.Aqui, Tillinghast se sentou também, de frente para mim, segurando sua vela e olhando-me perversamente nos olhos. “Seus órgãos sensórios existentes – ouvidos primeiro, suponho – captarão muitas das impressões, pois estão intimamente conectados com os órgãos adormecidos. Então haverá outros. Já ouviu falar da glândula Pineal? Rio-me dos ingênuos endocrinologistas, pretensiosos e comparsas iludidos dos freudianos. Essa glândula é o órgão sensório por excelência – eu o descobri. É como uma visão, afinal, e transmite imagens visuais ao cérebro. Se você é normal, esse será o modo como você obterá a maior parte… Refiro-me à maior parte da evidência do além”.

            Olhei em volta o imenso sótão com a parede alta ao sul, obscuramente iluminada por raios que os olhos cotidianos não poderiam ver. Os cantos mais distantes eram pura sombra, e o lugar inteiro mergulhava numa irrealidade nevoenta que obscurecia sua natureza e convidava a imaginação ao simbolismo e à fantasmagoria. Durante o longo intervalo em que Tillinghast permaneceu em silêncio, tive um devaneio de estar num incrível e vasto templo de deuses há muito desaparecidos, num edifício vago de inúmeras colunas de pedra negra que se elevavam de um piso de lajes úmidas até alturas de nuvens que ficavam para além da minha visão. A imagem me pareceu bastante vivida por algum tempo, mas gradualmente deu lugar a uma concepção mais horrível – aquela da solidão extrema e absoluta do espaço infinito, inescrutável e silencioso. Parecia haver um vazio e nada mais, e senti um medo infantil que me fez sacar do bolso junto ao peito um revólver que passei a carregar desde que fora assaltado em East Providence. Então, das mais distantes regiões do remoto, o som deslizou suavemente para dentro da existência. Era infinitamente débil, sutilmente vibrante, e inequivocamente musical, mas continha um não sei que de indizivelmente selvagem que fazia com que o seu impacto parecesse uma tortura delicada de todo o meu corpo. Vieram-me sensações que eram como se alguém pisasse vidro moído no chão. Simultaneamente, desenvolveu-se alguma coisa como um sopro frio, que aparentemente passava por mim vindo do som distante. Enquanto, sem fôlego, aguardava, percebi que tanto o som quanto o vento estavam aumentando, o efeito assemelhando-se ao de ter sido atado a um par de trilhos no caminho de uma gigantesca locomotiva que se aproximasse. Comecei a falar a Tillinghast e, quando o fiz, todas as impressões incomuns se desvaneceram abruptamente. Vi apenas o homem, as máquinas cintilantes e o cômodo penumbroso. Tillinghast ria de um jeito repulsivo para o revolver que eu sacara quase inconscientemente, mas pela sua impressão compreendi que ele tinha visto e ouvido tanto quanto eu, se não muito mais. Murmurei o que eu tinha experimentado, e ele me instruiu para que permanecesse o mais quieto e receptivo possível.

            “Não se mova”, advertiu, “pois nesses raios tanto podemos ver quanto ser vistos. Eu lhe disse que os servos foram embora, mas não lhe disse como. Foi aquela governanta de cabeça dura; ela acendeu as luzes no térreo depois que eu avisei para não fazer isso, e os arames captaram vibrações empáticas. Deve ter sido amedrontador – pude ouvir os gritos daqui de cima, a despeito de tudo o que via e ouvia vindo de outra direção, e mais tarde foi pavoroso encontrar aqueles montes vazios de roupas por toda a casa. As roupas da senhora Updike estavam próximas do comutador de luz da sala – eis como eu soube que ela o fizera. Pegou-os a todos. Mas, desde que não nos movamos, estamos razoavelmente seguros. Lembre-se de que estamos lidando com um mundo medonho no qual somos praticamente indefesos…fique quieto!”

            O choque combinado da revelação e da intimação abrupta deu-me um tipo de paralisia, e no terror minha mente se abriu de novo para os impressões que vinham do que Tillinghast chamou de “Além”. Um vórtice de som e movimento me envolvia agora, imagens confusas surgindo diante de meus olhos. Eu via os contornos imprecisos do cômodo, mas de algum ponto do espaço parecia jorrar uma coluna fervilhante de formas irreconhecíveis ou de nuvens, penetrando no teto sólido num ponto adiante, à minha direita. Então vislumbrei o templo – como efeito novamente, mas desta vez os pilares subiam em direção a um oceano aéreo de luz, o qual despejava um raio de luz ofuscante por todo o caminho da coluna de nuvens que eu vira antes. Depois disso, a cena tornou-se quase inteiramente caleidoscópica, e na profusão de visões, sons e impressões sensoriais não identificadas, senti que estava prestes a me dissolver ou, de algum modo, a perder a forma sólida. De um determinado lance eu hei de me lembrar para sempre. Pareceu-me ter visto, por um instante, uma nesga de estranho céu noturno repleto de esferas cintilantes e rodopiantes, e quando desapareceu vi que os sóis brilhantes formavam uma constelação ou galáxia de forma definida, sendo essa forma o rosto distorcido de Crawford Tillinghast. Noutra ocasião, senti que as coisas imensas e animadas se arrastavam para além de mim e às vezes caminhavam ou vagavam através do meu corpo supostamente sólido, e pensei ter visto Tillinghast olhar para elas como se seus sentidos mais bem treinados pudessem captá-las visualmente. Lembrei-me do que ele dissera acerca da glândula pinel e me perguntei o que ele via com esse olho sobrenatural.

            De súbito, senti-me também possuído por uma espécie de visão aumentada. Por cima e ao longo do caos luminoso e sombrio se elevava uma imagem que embora vaga, continha elementos de consistência e permanência. Era de fato algo familiar, pois a parte incomum estava superposta à cena comum e terrestre, tal como uma imagem de cinema se pode projetar sobre a cortina pintada de um teatro. Vi o laboratório do sótão, a máquina elétrica e a forma indistinta de Tillinghast em frente a mim, mas de todo o espaço não ocupado por objetos familiares sequer a menor porção esta vaga. Formas indescritíveis, vivas ou não, se misturavam numa desordem repulsiva, e perto de cada coisa conhecida havia mundos inteiros de entidades alienígenas e ignotas. Igualmente, parecia que todas as coisas conhecidas entravam na composição de outras coisas desconhecidas e vice-versa. Mais à frente, entre os objetos vivos, havia monstruosidades pretas, semelhantes a medusas, que estremeciam languidamente com as vibrações da máquina. Manifestavam-se numa profusão nauseante, e eu vi, para meu horror, que se imbricavam, que eram semifluidas e capazes de passar através umas das outras e daquilo que conhecemos como sólidos. Essas coisas jamais paravam. Antes, pareciam flutuar sempre com algum propósito maligno. Às vezes, davam mostras de devorar-se umas às outras, o atacante lançando-se sobre sua vítima e instantaneamente fazendo-a desaparecer de vista. Trêmulo, entendi o que tinha feito desaparecer os infelizes criados, e não podia expulsar a coisa de minha mente enquanto lutava para observar outras propriedades do mundo, há pouco tornado visível, que existe incógnito à nossa volta. Mas Tillinghast tinha estado a me observar e agora falava.

            “Você as vê? Você as vê? Vê as coisa que flutuam e se precipitam à sua volta a cada momento de sua vida? Vê as criaturas que formam o que os homens chamam de ar puro e de céu azul? Não tive sucesso em romper a barreira, não mostrei a você mundos que os outros homens jamais chegaram a ver?”. Ouvi seu grito através do horrível caos e olhei para a face selvagem que tão ofensivamente se colava á minha. Seus olhos eram poços de chamas e me fitavam com aquilo que – logo entendi – eram apenas o mais profundo ódio. A máquina ronronava de maneira horrorosa.

            “Pensa que essas coisas rastejantes arrebataram os criados?” Tolo, são inofensivas! Mas os criados desapareceram, não é? Você tentou me impedir, você me desencorajou quando precisei de cada gota de incentivo que pudesse obter. Você teve medo da verdade cósmica, seu maldito covarde, mas agora eu o peguei! O que foi que levou os criados? O que os fez berrar tão alto?… Não sabe, hein? Logo, logo saberá. Olhe para mim – ouça o que eu digo. Supõe você que existem mesmo tais coisas como tempo e magnitude? Acredita mesmo que existem tais coisas como forma e matéria? Eu lhe digo, você atingiu profundidades que o seu pequeno cérebro não pode conceber. Vi para além das fronteiras do infinito e arrastei demônios das estrelas… Conduzi as sombras que perambulam de mundo em mundo para semear a morte e a loucura… O espaço me pertence, esta me ouvindo? As coisas estão à minha caça agora – as coisas que devoram e dissolvem – , mas eu sei como ludibriá-las. É a você que elas pegarão, como fizeram com os criados… Está tremendo, caro senhor? Eu lhe disse que era perigoso mover-se, coloquei-o a salvo dizendo que se mantivesse quieto – salvei-o para ter mais visões e para me ouvir. Se você tivesse se movido, eles já teriam se atirado sobre você há muito tempo. Não se preocupe, não vão machucá-lo. Não machucaram os criados – foi apenas ver que os fez berrar daquele jeito. Meus bichinhos não são bonitos, pois vêm de lugares onde os padrões estéticos são…muito diferentes. Eu quase os vi, mas soube como parar. Você é curioso? Sempre soube que você não era um cientista. Tremendo, hein? Tremendo de ansiedade para ver as últimas coisas que descobri. Por que não se move, então? Cansado? Bem, não se preocupe, amigo, pois elas estão vindo…Olhe, olhe, amaldiçoado, olhe…Está bem em cima do seu ombro esquerdo”.

            O que falta contar é bem pouco, e vocês talvez já tenham sabido por meio dos jornais. A polícia ouviu um tiro na velha casa de Tillinghast e nos encontrou lá – Tillinghast morto, e eu, inconsciente. Prenderam-me, porque o revólver estava em minha mão, mas soltaram-me dentro de três horas, pois descobriram que foi a apoplexia que acabou com Tillinghast e viram que meu tiro tinha sido disparado contra a máquina perversa que agora jaz irremediavelmente destroçada no chão do laboratório. Não contei muito do que vi, pois temi que o coronel ficasse cético, mas, pela descrição evasiva que dei, o médico me disse que, sem dúvida, eu tinha sido hipnotizado pelo louco vingativo e homicida.

            Quem dera eu pudesse acreditar no médico. Seria bom para os meus nervos se eu pudesse pôr de lado o que agora tenho de pensar sobre o ar e o céu que me envolvem e que estão acima de mim. Nunca me sinto sozinho e confortável, e um senso horrível e arrepiante de perseguição às vezes me invade quando esmoreço. O que me impede de acreditar no médico é apenas este fato: que a polícia nunca encontrou os corpos dos criados que, segundo dizem, Crawford Tillinghast assassinou.

FIM

Sobre o Autor Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) – foi um dos maiores escritores do gênero horror e fantástico de todos os tempos. Ainda hoje, quase um século depois de sua prematura morte, figuras como Stephen King e Clive Barker são seus fiéis admiradores. Lovecraft nasceu e viveu quase toda sua vida em Providence, R.I. Teve uma vida simples do ponto de vista econômico e poucos amigos na vida cotidiana, mas de uma correspondência espantosa. Criou um conjunto de histórias ao qual foi denominada “Mitos de Cthulhu”, parte mais significativa de sua obra, um conjunto de narrativas fantásticas sobre horror e ficção científica que virou uma grande mitologia. Além de Lovecraft, muitos outros autores se juntaram a ele, nomes como Robert E. Howard, H.R. Barlow, Frank Belknap Long, Robert Block, Clark Ashton Smith e outros; formando o “Círculo de Lovecraft”. Embora admirado por escritores famosos da época e outros amadores; em vida não teve nenhum livro de capa dura publicado, apenas ensaios e contos curtos em revistas populares da época como a “Weird Tales”

 

Para saber mais sobre o autor: www.sitelovecraft.com

O PÁSSARO DOURADO – PARTE 5, de James Andrade

•22 Maio, 2009 • 2 Comentários

 corvos5

 

            É noite. A sala está às escuras. E fria. O vento gelado que sopra lá fora entra livremente pelas janelas abertas. A lareira, apagada, de nada vale. Nenhum ruído se ouve, é como se o cômodo estivesse vazio.

            Mas não está.

            Sentado em um banco de couro, de frente para a lareira, está um homem que um dia foi um guerreiro, sentado é modo de dizer, o correto é jogado. Ele está assim desde que chegou da academia; esquecida em um canto está uma sacola esportiva, dentro dela uma toalha sem uso, uma raquete de squash com várias tiras estouradas e restos de uma bolinha. E um tênis tamanho 50 que também rasgou.

            Ele, o homem, tem os olhos cerrados, mas não está dormindo, apenas se deixa ficar em meio às trevas. Taciturno, pensa em navios de carvalho com cabeça de dragão; não só pensa, ele se lembra deles; dos barcos que hoje chamam de Drakkar, que quer dizer “Dragão”, mas o nome que lhe vem à mente é Skeid “o que corta a água”; sim, eles eram velozes, como o vento.

            “Quase duas vezes mais rápidos que uma ridícula trirreme romana”[1]. – ele pensa.

            Ele lembra dos dias e noites sem fim, quando a costa da Ilha da Bretanha era só uma promessa difusa e longínqua, dos mares bravios, das ondas furiosas quebrando praticamente dentro do barco, dos brados de desafio às águas escuras que seus companheiros gritavam, do sal em sua boca, do vento em seus cabelos… E do riso farto em seus lábios. Ele costumava sorrir. Muito. Tem certeza que não faz mais isso. Imerso na melancolia, pensa até que se esqueceu de como sorrir.

            Há algo de mórbido em sua tristeza.

            Com alarde, quebrando o silêncio monástico do lugar, um pássaro entrou pela janela.

            O homem esparramado no sofá o ignorou, sequer abriu os olhos, e, mesmo se os abrisse, teria dificuldade em vê-lo. As penas do pássaro são tão negras que ele praticamente se funde à escuridão, só o seu poderoso bater de asas denuncia a sua presença, e o seu tamanho incomum, mas o homem não se importou com a sua chegada, e continuou a pensar em barcos-dragões…

            E dragões que não eram barcos.

            Nem mesmo quando o enorme pássaro pousou no encosto do sofá onde estava escarrapachado o homem lhe deu atenção, mas não deixou de notar o som de suas garras perfurando o couro do móvel.

            Mau sinal.

            “Olá Siegfried – disse o soturno pássaro, sem palavras – vejo que retornou da tua labuta diária; mas dize-me, o que fazes em meio às trevas? Porventura treinas tua visão para o breu? Buscas enxergar tão bem nele como as crias do Dragão?”

            Siegfried ouve as palavras diretamente dentro da sua cabeça e, ouvir seu nome, o deixa ainda mais melancólico. O peso de ser quem é em um tempo em que não tem mais serventia o esmaga; nem mesmo a provocação sobre o Dragão o faz reagir.

            “Chamar aquele chupador de Dragão é uma ofensa, se algum dia ele encontrar um dragão de verdade, certamente perderá seus caninos amarelados. Pena que isso nunca acontecerá; já há muito eu matei o último dos dragões” – pensa Siegfried.

            Mas nada diz.

            “Preferes o silêncio? – continuou o pássaro – Veja como são zombeteiras as Norns[2] , no começo eu era obrigado a voar para longe só para me ver livre da tua ladainha incessante, e hoje, quando sinto necessidade de falar, tu te fazes de mouco”.

            — E em represália você destrói os móveis da casa… – resmunga Siegfried, ainda de olhos fechados.

            — Oh! Mil perdões My Lord Viking, não foi minha intenção, é que meu cérebro de passarinho não é capaz de observar as fendas do tempo e ter cuidado com a preciosa mobília ao mesmo tempo, tentarei só pousar sobre tu daqui para frente, pelo menos a tua pele não poderei danificar.

            “Viking! Pois sim. Ser viking[3] era uma ocupação para gente comum, camponeses que trabalhavam no inverno e se reuniam no verão para escaramuças e pilhagens, eu nunca fui viking, eu era um maldito huskalars, um guerreiro profissional, me pagavam para estar sempre de prontidão, alguns chegavam a pagar só para não me ter por perto”. – pensou Siegfried. 

            Mas preferiu continuar calado; e ignorou tanto a ironia quanto a provocação. Já se acostumou com isso.

            Munin sempre foi assim, mal-humorado; um grande amigo, totalmente confiável, mas de difícil convivência. Ele nunca admitiu, mas deve sentir muita falta do irmão, Hugin, e de Odin também, a morte de ambos o abalou muito, afinal, um vínculo incomum os unia; eles eram praticamente um só ser[4]. Deve ter sido isso que deixou o Corvo assim, azedo. Mas também pode ser que não, vai ver ele sempre teve a língua mais afiada que o bico.

            Sobre o Corvo nunca se pode afirmar nada.

 

 

 

continua…

 


[1] O Drakkar (ou Skeid), é o mais conhecido dos barcos de guerra viking, e alcançava velocidade de 22km/h; uma trirreme romana (barcos de guerra dotados de três linhas de remos) não ia além dos 12km/h.

[2] As Norns, na mitologia nórdica, são as três Deusas do Destino, e se chamam Urdur (o Passado), Verdande (o Presente) e Skuld (o Futuro).

[3] Viking, na antiga língua nórdica, significava “pirata”, ou ainda “bandoleiro”.

[4] Os Corvos Munin e Hugin eram, respectivamente, a Memória e o Pensamento do deus nórdico Odin. 

NOVIDADES NO FONTES

•19 Maio, 2009 • 1 Comentário

FontesLiterat

Olá, Pessoal!

Temos novidades para nossos leitores e amigos! No mês de Junho/2009 estréia aqui no FONTES, a coluna LITERATURA, onde, a cada mês, vocês poderão ler uma dica de leitura de uma obra resenhada por Rossana Silva. Mais uma novidade onde procuramos incentivar a leitura no universo ficcional brasileiro, em especial a magnífica Literatura Fantástica.

Um grande abraço a todos!

Rossana

Quem é ROSSANA SILVA?

Tradutora, crítica, revisora e pesquisadora literária, Rossana Silva iniciou seus trabalhos e  estudos  na  área  há  aproximadamente 23 anos,  quando participou  de  um  curso  para   jovens talentos  na UMKC   – University  of Missouri, Kansas City – USA.

Seus  interesses    literários estão especialmente voltados  para as obras de Ficção, Literatura Fantástica, Terror, Fantasia e Mitologia em geral.

Integrante de grupos de estudos conceituados tais como Conselho Branco, Hogfriends e GELF, participa de lista de discussões e atualmente reside em Brasília – DF.

Contato: rossx23@yahoo.com